sábado, 12 de agosto de 2017

A Ilusão Permanente


Dependemos, para a nossa compreensão do mundo, dos sentidos. Sendo estes por sua vez, interpretados pelo nosso cérebro. Este por sua vez atribui significado à nossa perceção permitindo construir uma realidade. O primeiro ponto é que esta realidade é só nossa, fazendo de cada um de nós uma ilha. O sermos uma espécie social, que desenvolveu linguagem é que nos permite partilhá-la. Isso dá-nos a primeira ilusão: a de que vivemos uma realidade comum.
O segundo ponto é que a forma como construímos a realidade em nossa mente, é apenas uma colagem fragmentada do que os nossos sentidos fornecem como matéria-prima para a sua construção. A quantidade de informação que nos chega através dos sentidos seria suficiente para assoberbar qualquer sistema de recolha de dados. Portanto o que chega ao cérebro para processamento já foi filtrado antes. Isso constitui a segunda ilusão: A nossa perceção nunca é completa, mas constitui-se de fragmentos.
O terceiro ponto é que mesmo o que é filtrado provindo dos sentidos nem sempre é produto do mundo físico, mas antes uma construção que o cérebro gera para compensar os hiatos. Existem nas nossas retinas um lugar que é cego, precisamente onde esta se liga ao nervo ótico. Contudo o nosso cérebro dá-nos imagens do que se vê sem um ponto negro, cego. Quer acredite, quer não, o seu cérebro “construiu” a parte que o olho não vê e não somos capazes de nos dar conta disso.
Fazemos por nos ver num continuum temporal, por isso podemos confabular para preencher as memórias que não temos. O que de fato fazemos constantemente, construindo uma narrativa pessoal em que inserimos os outros de modo a que haja pelo menos a ilusão de coerência, de continuidade. Mas são memórias criadas e não resultaram de experiência.
Há assim uma obrigação honesta, que é de reconhecer que não sabemos o que é a realidade. Na tentativa de ultrapassar as nossas mais do que óbvias limitações, construímos modelos da realidade. Os modelos são construções teóricas, conceitos que nos permitem fazer uma ideia do que a realidade poderá ser. O que quer dizer, em sincera admissão, que nunca teremos a certeza.
Nem sequer temos a certeza de quem somos, já que possivelmente os outros não nos veem como pensamos ser. Assim há um exercício de humildade que é necessário ter ao considerar o que pensamos ser. [1] Até porque o que somos agora, pode ser diferente do que somos amanhã. [2]
A pesquisa instantânea através dos motores de busca como o Google dá-nos a ilusão do conhecimento. Num instante temos a informação sobre tudo o que quisermos, mas isso não faz de nós um especialista. Ler jornais também já não nos põe ao corrente dos factos, mas antes filtra-os e manipula-os em função de ideologia ou de interesses escondidos. A ética no rigor esvai-se na maré de “fake-news”, a ponto de ser uma questão de fé em que notícias acreditar. E como em qualquer outra fé o desapontamento pode estar ao virar da esquina.
Se no mais essencial temos um deficitário conhecimento, como nos podemos lançar na presunção da teologia e colocando mais uma incógnita, ou seja Deus, afirmar que sabemos o que é a realidade e mais ainda, como esta veio à existência.
Talvez a teologia não passe de uma elaboração cerebral, na sua inclinação para a efabulação. Mas acho que resulta na incapacidade que as crianças demonstram em compreender a morte física, mas não a psíquica. Para elas a consciência nunca morre, é eterna. E para nós adultos custa conceber uma realidade onde não estamos. [3]
Gostamos de ser enganados mesmo sabendo que o estamos a ser. Quem nunca assistiu a um espetáculo de magia que atire a primeira pedra! [4] Ou quem nunca viu um filme!
Gostamos de cinema, em que um conjunto de imagens paradas nos dá a ilusão de movimento. E estas imagens em planos cortados sucessivamente contam-nos uma história, como a nossa memória faz, em parcelas, contando a nós mesmos uma história que parece contínua.
Mergulhamos em ilusão. Vivemos sempre debaixo de três ilusões:
A de pensar que conhecemos a realidade.
A de pensar que sabemos quem somos.
A de pensar que somos eternos.
As duas primeiras preparam-nos para a última, sendo esta última alimentada em força, pela religião.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Progresso Espiritual Cristão



Vamos abordar em termos exegéticos aquilo que significa ser cristão e como decorre o progresso espiritual de alguém que se diz cristão. A abordagem é necessariamente exegética porque é inútil discutir se faz sentido ter ou não uma religião ou acreditar em Deus, para aquele que já é crente, assumindo com seriedade e sinceridade a sua crença.
Portanto em termos puramente baseados nas Escrituras (sola scriptura), as mesmas em que o cristianismo assenta e a partir das quais se desenvolveu, vamos falar de progresso espiritual.
O progresso espiritual não pode ser medido em termos do que alguém aparenta, ou seja, pelo que faz. O que faz pode ser uma ilusão, uma aparência de espiritualidade, como ocorreu com o farisaísmo tão prontamente denunciado pelo Cristo. Se é verdade que "a fé sem obras está morta"[1], não é menos verdadeiro que fazer "sem amor, é como um címbalo que retine"[2] sendo a obra então um vazio.
O progresso espiritual pode antes medir-se naquilo em que modifica o indivíduo, no seu íntimo e na sua relação com os outros e a restante criação. Se essas relações se tornam mais sólidas, mais nítidas de intenção e de propósito, há um claro progresso. Outra medida, é a forma como o indivíduo se lê em relação a si próprio. Ou seja, se ele sente essas mudanças como um progresso, uma iluminação. Se essa progressão lhe dá contentamento, mesmo que não lhe traga felicidade. Porque, afinal, a verdade pode revelar-se cruel. Ou crua.
A espiritualidade das aparências veicula a literalidade e o formalismo.
Ou como menciona o erudito Johannes H. Scholten: "Os profetas dão lugar à sinagoga, a proclamação ao vivo da verdade à erudição,  o espírito de liberdade à servil sujeição à Escritura e à tradição. "[3]
Em suma, trata-se de cercear a relação entre Deus e o homem na sua essência mais básica. A espiritualidade passa a ser um mero paramento, um teatro ritualizado. Esvazia-se.
Cristo vem recuperar a relação pessoal com Deus, encher a prática de um sentido prático, desvalorizando o ritual, fazendo da espiritualidade uma alavanca para um mundo melhor: Ama a Deus com o melhor de ti mesmo, mas depois de por isso seres tu mesmo melhor, "ama o teu próximo como a ti mesmo"[4].
Esta mantra cristã deve ecoar permanentemente no crente, fazendo-o re-ganhar "a liberdade"[5] que é o que o espírito de Deus produz. Uma liberdade que permite a proclamação da verdade. Verdade esta que resulta de uma busca individual, não manietada pela erudição, nem pela Escritura, nem pela tradição. A proclamação da verdade é afinal e tão somente um testemunho, resultado de uma experiência pessoal de âmbito profundo. É o reabilitar do passado, o papel singular do profeta. Do que mesmo que a contra-gosto como Jeremias não pode ficar calado, face à impelência do espírito[6].
A verdadeira espiritualidade é dinâmica e infunde coragem ao indivíduo. Projecta-o a uma dimensão maior do que ele próprio sem contudo lhe roubar a humildade e a modéstia. Se ganha poder, este poder é de Deus e visa a sua glória e não uma terrena. É a máxima "não temais quem mata o corpo, mas quem pode destruir a alma"[7].
Os profetas visavam os melhores interesses daqueles a que falaram. Visavam um arrependimento, uma mudança de atitude ou uma atitude que permitisse aos seus ouvintes serem bem sucedidos. No fundo parece ser esse o interesse de Deus. Cristo faz um extenso discurso sobre como ser feliz no seu famoso Sermão do Monte.
Contudo, muitas vezes, num paradoxo fascinante, os profetas são vítimas do seu amor a Deus e ao próximo. Cristo denúncia ao dizer que os de espiritualidade vazia e servil são afinal os descendentes dos "que mataram os profetas", mesmo que agora lhes cuidem das sepulturas, mas sem genuíno arrependimento, sem mudança de atitude[8].
Crescer em sentido espiritual afigura-se então uma espécie de idade adulta da espiritualidade. Uma que assegura a genuinidade da palavra um "sim que significa sim, e um não um não"[9],  uma experiência com Deus tão intensa que permite o testemunho, não como ritual paramentado e decorado, mas como água fresca e pura que leva a dizer "homem algum falou como este"[10] ou quando se sugeriu aos que com ele privaram que se fossem, disseram "para quem iremos?"[11]

[1] Tiago 2:26
[2] 1 Coríntios 13:1
[3] "A Comparative View of Religions"
[4] Marco 12:30, 31
[5] 2 Coríntios 3:17
[6] Jeremias 20:9
[7] Mateus 10:28
[8] Mateus 23:29 a 31
[9] Mateus 5:37
[10] João 7:46
[11] João 6:68

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O Sentido da Vida



Em algum ponto, acontece interrogar-mo-nos sobre o que fizemos com a nossa vida. Talvez nos arrependamos das coisas que deixamos inacabadas ou daquelas que podíamos ter feito e não fizemos.
Pela imensidão de possibilidades que a nossa vida podia ter tomado, tal reflexão não é cómoda e é natural que não queiramos pensar muito nisso. Mas quem teve uma esperança que afundou e que o deixou sem outra escolha que não seja o reflectir, não há alternativa.

Quero em primeiro lugar dizer-vos que vos compreendo demasiado bem e sei da angústia associada. Tomemos coragem então e prossigamos numa reflexão sobre o assunto.

A primeira questão é: Precisa a vida de ter sentido?

A vida existe desde há milhões de anos e mesmo antes de saber interrogar-se, existia, mesmo que sem qualquer sentido. Portanto, a resposta é cândida e simples: A vida não precisa de ter sentido. Basta-lhe meramente existir.

De um ponto de vista científico (e aqui voltaremos de novo), a vida é apenas um conjunto fortuito de acontecimentos que desembocou em nós, mas que de modo algum a nós se limitará. Porque a natureza do Universo pariu a vida, parece-me um mistério que nunca terá resposta satisfatória.

A segunda questão e esta mais dolorosa: Preciso eu de um sentido para a minha vida?

Isto é, que justificação damos a nós mesmos para continuar vivendo? Se a morte é natural, porque a sentimos como uma contrariedade? Porque a embelezamos com esperanças de uma continuidade, de alguma forma, em algum lugar? Porque a vida se agarra a essa condição com tenacidade? Porque se nos deu um instinto de sobrevivência? Há propósito em viver?

Destas questões e da impossibilidade de se lhes responder em termos definitivos surgiu primeiro a religião. Esta com propósitos mais imediatos de nos enquadrar dentro do drama cosmico e de nesta pequenez humana nos erguer, quando não como deuses, como próximos destes. Serviu assim a nobre função de amparar as nossas angústias face à cruel realidade de uma vida curta, insignificante na sua duração, quando comparada às vagas de humanos, geração após geração.

Digerimos mal ainda estas reflexões e as angústias que causam. Somos ainda muito animalescamente imediatos. A sobrevivência, sempre a sobrevivência. Somos meros escravos dos genes que querem passar uma geração mais adiante. Daí que nos tempos antigos, a esterilidade seja vista como maldição, como um fim definitivo. Realmente  drama de não ter filhos, passa por essa consciência que não deixamos nenhum legado.

Que sentido devemos dar à vida?

Cada um naturalmente a enche do sentido que acha que esta deve ter. Por isso as mães se sentem tão realizadas por deitarem filhos ao mundo, como se a continuidade genética fosse per si, sentido suficiente. Talvez seja realmente o maior sentido que a vida tem.

Mas muitos acham que isso não basta. Para encherem a vida de sentido, procuram construir um mundo melhor, deixá-lo mais agradável de ser usufruído. Enveredam por activismos de vária índole, alguns com grande sacrifício pessoal. Foram as lutas contra a escravatura, o direito ao voto por parte das mulheres, etc. Uma admirável multidão de vítimas que a encheram de sentido, desse sentido que lhes deu um rumo e contribuiu para o nosso rumo actual.

Outros procuram deixar o seu legado, talvez enveredando por alguma arte, deixando-nos o seu testemunho de quando por aqui andaram. Deixam-nos romances, poesia, pintura, escultura, música. Eles alargam o Universo e tornam-no belo e suportável. Mesmo quando retratam as angústias comuns, ou os pesadelos pessoais, deixam um legado. Não importa se faz sentido, se acham sentido nisso. Basta que deixem uma memória de si mesmos, como se de algum modo isso os fizesse perdurar no tempo. 

Outros talvez se dediquem com afinco a perseguir as questões mais básicas sobre a existência através da ciência. A ciência é mera ferramenta nas mãos destas formiguinhas. Uma ferramenta humana, mas muito eficaz. O que nos diz a ciência sobre o sentido da vida? Muitos pensarão que não pode dizer nada, que essa não é matéria sobre que se debruce, área que possa explorar. Não o creio. Pelo menos de forma plena e inteira, porquanto a ciência nos abre para a realidade que não descortinamos de imediato.

Então que nos diz a ciência sobre o sentido da vida?

Ela diz-nos que as construções estruturais, a forma como vemos o mundo é fundamental para lhe dar sentido. Ela mostra que criamos essas estruturas (em inglês “frameworks”) com objectivos muito pragmáticos que vão beber ao tal instinto de sobrevivência.

Ela diz-nos que o Universo é sempre maior do que temos noção. As estrelas passaram de pontinhos cintilantes até aglomerados de galáxias em crescendo até a angústia. Esta de sabermos que a cada abertura do horizonte nos tornamos mais pequenos. Está em vias de nos querer dizer que talvez não existe só um Universo , mas muitos, acrescentando pequenez à nossa pequenez. Se a mera existência nos parece tão curta, a distância torna a caminhada ridícula. Somos pó em cima de um berlinde azul.

Ela, a ciência não o esqueçam, diz-nos que o mundo não é o que parece e que as grandezas se transformam. O tempo dilata e encolhe, uma coisa pode ser partícula e onda e as coisas para acontecerem têm de ter um observador. Talvez acontecessem na mesma, mas só com um observador adquirem um estado mais definitivo. 

Ela, diz-nos que talvez não seja o mundo material a fazer acontecer, mas o da consciência. Revirando do avesso tudo o que pensávamos saber até aqui. Invertendo o referencial de causalidade que agora não é mais das partículas elementares para o resto, mas da consciência para a partícula.  

A ciência é a arte das surpresas que nos diz que apesar da nossa vida não ter sentido, estamos longe de nos deixar abater pelo que não sabemos. As gerações, essas vindouras, hão-de rir-se dos nossos medos e da nossa noção de sentido. Elas descobrirão talvez, que tudo isto é uma matrix, uma ilusão e que realmente não precisamos ter medo ou de temer, porque a vida não acaba, apenas se transmuta como a partícula que umas vezes é e outras se transforma numa onda.

E sim, sempre tudo esteve à nossa frente, só não sabíamos para onde olhar. Ou tão só o que devíamos esperar ver. No fim fechando o ciclo, os místicos terão razão, que o mundo não é apenas "isto“, mas há outras realidades que no presente e por agora se nos escapam.

Talvez haja sentido para a esperança e como diz o ditado, enquanto há vida...

sábado, 26 de setembro de 2015

Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão


 
O título da nossa postagem é um velho ditado português que procura transmitir a ideia de que é inútil a alguém treinado numa arte, ser igualmente bom noutra. Por isso, um sapateiro pode ser magnífico, mas não se pode esperar que por isso saiba tocar violino (rabecão). [1]

A expressão proverbial enche-se de significado ainda mais quando a consideramos no contexto da religião. À religião permitimos que diga os maiores disparates, na maior das solenidades, com vénia e respeito. A religião intromete-se, às vezes de forma intolerável, em todos os aspectos da vida humana. Infelizmente, não apenas para opinar, mas muitas vezes para manipular, dirigir e conseguir.

Mas creio que não é difícil compreendermos que alguém com dores nos intestinos, não procure ser consultado por um cozinheiro, mas por um médico! Tal consulta poderia tornar-se até um destino fatal, caso se tratasse de uma peritonite, por exemplo. [2]

No entanto é fantástico como a religião subverte o bom senso, não se coibindo de emitir opiniões médicas! É conhecido que as Testemunhas de Jeová rejeitam as transfusões de sangue. O assunto tornou-se tão embaraçosamente ridículo que agora permitem-se certas fracções, mas não outras. Nenhum texto bíblico suporta esta divisão do sangue em fracções. Trata-se apenas de sapateiros a tocar rabecão.

Basicamente, as Testemunhas de Jeová baseiam-se em dois versículos bíblicos para suportar esta sua posição quanto à não aceitação de transfusões de sangue. O primeiro deles, que toma precedência, foi a ordem dada a Noé depois do dilúvio e da saída da arca e que consideram de carácter universal, uma vez que segundo a Bíblia, toda a Humanidade descende de Noé e dos sobreviventes com ele, ao dilúvio. O texto reza: “Somente a carne com sua alma — seu sangue — não deveis comer.” [3] Reforçam-no depois com as decisões do que assumem como o primeiro concílio apostólico e que toma a seguinte forma: “Pois pareceu bem ao espírito santo e a nós mesmos não vos acrescentar nenhum fardo adicional, excepto as seguintes coisas necessárias: de persistirdes em abster-vos de coisas sacrificadas a ídolos, e de sangue, e de coisas estranguladas, e de fornicação. Se vos guardardes cuidadosamente destas coisas prosperareis. Boas saúde para vós!” [4] Um primeiro aspecto que importa realçar é que as referências ao sangue nos dois contextos parecem claramente de ordem nutricional. Ou seja, parece haver uma proibição quanto a comer sangue. 

Não parece razoável crer que o autor de ambos os versículos pensasse sequer em transfusões de sangue. As Testemunhas de Jeová insistem que sim. Vamos conceder que possa ser uma hipótese possível, mas vamos ser intelectualmente honestos e usar o mesmo raciocínio noutros contextos bíblicos. Vejamos este texto que se encontra numa das epístolas de Paulo a Timóteo: “Não bebas unicamente água, bebe também um pouco de vinho pois faz-te bem às tuas frequentes indisposições.” [5] É razoável pensar que este era apenas um conselho bem intencionado de Paulo ao seu jovem amigo, pois talvez a água disponível a Timóteo pudesse não ser da melhor qualidade e evitaria problemas de estômago bebendo vinho. Já não parece razoável que aplicássemos este texto como sendo uma obrigatoriedade de que todo o cristão “com frequentes indisposições”, deva beber um pouco de vinho; e que não fazer assim, seja demonstrativo de falta de fé!

Mas podemos ir mais longe e supor que de novo o Divino Mestre, Jesus em pessoa, regressasse a esta Terra e imaginemos o diálogo:
— Olha Mestre, nós cumprimos todos os teus mandamentos, e nem deixamos que nos transfundissem sangue! 
— Mas quem é que vos impediu de tomar transfusões de sangue? 
Com ar certamente atónito mostrarão ao Divino Mestre que a descida à Terra lhe deve ter transtornado o seu cérebro perfeito e lhe mostrarão pressurosos o texto de Atos, já atrás mencionado: — Vede Senhor, aqui… — e apontarão com o dedo os versículos exactos. 
— Oh Valha-me Deus! Mas onde se fala aqui de transfusão de sangue? 
— Mas Senhor tomá-lo nas veias é mesmo que comê-lo! — Jesus dará um profundo suspiro, semelhante ao que deu quando disse “perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” e explicará: 
— Aqui nem fala sequer em comer sangue… 
Todas as caras estarão espantadas com esta revelação e ainda em plena dissonância cognitiva dirão em protesto: 
— Mas está lá escrito “abster-vos de sangue”! 
— Pois está! Isso quer dizer que os cristãos devem ser pacíficos e pacificadores, não devem manchar-se de sangue, como que tirando a vida de outra pessoa. 
 O silêncio será sepulcral, até um mais afoito notar:
— Como pode ser isso? Lá também diz para se abster de estrangulado, estrangulado  não é sangrado, por isso...
Jesus terá um sorriso resignado e compreensivo e dirá:
— O que se queria dizer com isso, é que até a morte dos animais devia ser compassiva. O animal não precisa sofrer para morrer ou ficar a escorrer sangue até se esvair, entendeis?
— E então como devemos abster-nos de coisas sacrificadas a ídolos?
— No sentido de que não há espiritualidade maior do que uma relação pessoal com Deus, que não se estabelece por sacrifício nenhum, mas pelo amor…
— E então como devemos abster-nos da fornicação?
— No sentido de que o amor, a intimidade e o afecto não se compram, partilham-se liberalmente. Se o amor se pagasse, eu que dei a minha vida por vós receberia apenas vinte moedas?

Seria nesta altura que alguns se afastariam do Mestre dizendo:
“Esta palavra é chocante; quem pode escutar isso?” [6]

[3] Génesis 9:4
[4] Atos 15:28, 29
[5] 1 Timóteo 5:23 versão A Bíblia para Hoje
[6] João 6:60

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A Gaiola Dourada



O título deste “post” é o título de um filme[1] sobre a emigração da américa latina em direcção aos EUA. Os emigrantes demasiado pobres, vêem nos EUA o paraíso, o eldorado, o fim da sua pobreza e o cumprimento de todos os sonhos de prosperidade. Mas será mesmo? Pelo menos, o percurso até esse mítico paraíso é doloroso. Uma selva povoada por cruéis feras humanas. E à medida que se aproximam do objectivo, vão sendo espoliados de tudo. Dos quatro que partem, só um chega ao destino para acabar num matadouro, literalmente.

Portanto, a questão impõe-se: Vale tentar tudo em busca da felicidade? Devemos usar a liberdade para ir em busca dela?

Numa abordagem descuidada e despretensiosa a tentação é de responder que sim.

Valerá a pena trocar a liberdade por uma condição de prosperidade?

Será que a liberdade não é uma condição essencial para a felicidade? A Bíblia fala de liberdade e de libertação como algo legítimo a alcançar. Elemento essencial para a alcançar é o conhecimento, um conhecimento verdadeiro.[2]

A dependência de algo ou alguém deve decorrer da ordem natural das coisas. Se o não for é uma coerção.

À dependência de Deus, caso exista enquanto Criador do Universo, insere-se na ordem natural das coisas, sendo como é causa última. Como vê Deus a liberdade? Ele quer concedê-la a todos os seus filhos - Rom. 8:21 “…a própria criação será liberta…e terá a liberdade gloriosa dos filhos de Deus.” A liberdade para ser alcançada exige esforço. Qual esforço? O de conhecer a verdade, pois o Mestre diz: “Conhecereis a verdade e esta vos libertará”[2] Como se alcança a verdade se cada um tem a sua própria interpretação dos factos?

Creio que a melhor forma ou seja, a ferramenta mais eficaz tem sido o método científico. Alguém poderá argumentar que este apenas explica a matéria deixando de lado coisas como a filosofia e a religião. Devo argumentar que o conhecimento científico precisa de um enquadramento filosófico e pode mesmo beneficiar da visão religiosa, como hipótese para a compreensão da realidade.[3] Mas nunca conheceremos a realidade, apenas nos aproximamos qual assímptota. [4]

Devo argumentar aqui que creio que Deus se agradará imenso do progresso que fizemos com essa ferramenta. O conhecimento exacto é a sua essência, o seu espírito! Se a verdade liberta, se Deus pretende conceder-nos liberdade, então como diz Paulo “…onde estiver o espírito de Deus, ali há liberdade.”[5]

Alguns apologistas argumentarão que o conhecimento científico não pode ser a verdade de Deus, já que contradizem as Sagradas Escrituras. Penso que não é causa para rejeitarmos a ferramenta do método científico, ainda. O conhecimento científico ao contrário do religioso não é dogmático. Ele não se fecha sobre as suas próprias afirmações de forma irredutível. O conhecimento cientifico é permanentemente posto em causa e diferente do religioso ele verdadeiramente é “…como a luz que clareia mais e mais, até o dia estar firmemente estabelecido”.[6]

Portanto, para o crente realmente devoto, um que se preocupe mais com as questões de fundo que de forma, um que abandone o farisaísmo tentador e queira realmente abraçar o discipulado do Mestre, precisa olhar a ciência como um aliado. E perante as incompatibilidades do conhecimento científico e as velhas Sagradas Escrituras, tem de usar o seu discernimento, distinguir o trigo do joio e deixar-se levar pelo espírito de Deus à verdade que o liberta.

A religião não oferece uma verdade fresca, uma água saudável para beber e crescer. Ao invés é uma ressequida e velha árvore, ladainha encantatória para o seduzir, igual à serpente que hipnotiza a ave. Ou como a original enganadora que a troco do conhecimento pretende cobrar um preço. A maioria das organizações religiosas pretende que o crente troque a sua liberdade em troca de uma gaiola dourada, que ilude o crente num falso senso de felicidade, muitas vezes assente apenas em promessas futuras. Pode ser um lugarzinho no céu na bem-aventurança de uma intimidade com Deus, ou para os menos angelicais, talvez apenas e só a promessa de um Paraíso na Terra. O prazer de viver e usufruir sem doença esta nossa humana existência, é realmente uma promessa apelativa. O crente é portanto um pássaro que iludido pela minhoca é apanhado pelo visgo, vivo ainda, mas deixando de ser livre. Livre de buscar a verdade, a tal que lhe permitirá ser livre, verdadeiramente livre. Apanhado é metido numa gaiola junto com outras vítimas. 

Igual ao emigrante que consegue finalmente chegar aos EUA, talvez caia finalmente vítima de cultos que continuarão a fazer da sua vida uma prisão, uma gaiola dourada. É nessa gaiola se espera que cante feliz, mesmo que não possa mais voar.

[1] La Jaula d'Oro
[2] João 8:32
[3] Aqui entendida como a verdade última.
[4] [Geometria] Linha recta disposta em relação a uma ramificação infinita de curva, de modo que distância de um ponto da curva a esta recta tende para zero quando o ponto se afasta indefinidamente sobre a curva. in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/assintota [consultado em 30-07-2015].
[5] 2 Coríntios 3:17
[6] Provérbios 4:18, na mesma abusiva interpretação das Testemunhas de Jeová, porque o texto se refere ao percurso de uma pessoa e não a um aumento de conhecimento doutrinário.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Soberania III



A intervenção de Deus nos assuntos da Humanidade quer no geral, quer nos casos particulares, poderia entender-se como uma violação do livre-arbítrio e simultaneamente uma coerção da soberania individual. 

Se a consciência expressa a soberania de Deus, as acções do indivíduo demonstram o seu grau de aproximação à vontade de Deus ou a sua vontade de se aproximar Dele!

O medo, sendo uma reacção primária, é um eficiente manipulador da soberania individual. O medo ultrapassa os circuitos racionais do cérebro, induzindo reacções primárias, nem sempre nos melhores interesses do indivíduo. As. Religiões organizadas aproveitam-se liberalmente deste mecanismo para curto-circuitar a expressão da soberania individual e substituírem a soberania de Deus expressa pela consciência, pela sua própria. Uma religião organizada é aquela que substitui a soberania de Deus pela sua.

domingo, 23 de novembro de 2014

Soberania II



O livre-arbítrio do Homem só é possível de expressão se for acompanhado de um exercício de soberania. A soberania, sendo resultado da criação de Deus, só pode originar-se também n'Ele. Como discorremos em artigo anterior, toda a soberania é um subconjunto da Absoluta que Lhe pertence. Este exercício de soberania nunca pode ir de encontra o propósito de Deus, senão como um desvio temporário, um ruído no seio da eternidade, que diminui de importância na medida em que esta decorre. Mesmo assim, Deus não deixou o Homem ao desamparo, concedendo-lhe uma ferramenta orientativa: a consciência.

Paulo desenvolvendo sobre a consciência, tornou bem clara a intenção de Deus ao criá-la. Ele argumenta que é ela, que ao tornar-se uma Lei para o indivíduo, o torna responsável moral pelos seus actos e constitui a base para o seu julgamento. Reparem que julgar é um exercício de soberania. Mas o extraordinário é que o indivíduo não é julgado pela Lei de Deus, conforme vulgarmente entendida, mas julgado pela Lei da sua própria consciência! Isto só faz sentido, como muito bem argumenta Paulo, se a consciência for um reflexo da soberania de Deus, e desse modo uma espécie de subconjunto da sua Lei. Assim a violação da Lei de Deus, é primariamente uma violação da consciência.

Singrando por argumentos semelhantes é que os julgamentos dos nazis em Nuremberga, puderam fazer sentido. Mesmo respaldando-se no cumprimento da lei nazi, ou do cumprimento de ordens através das estabelecidas hierarquias, os julgamentos de Nuremberga estabeleceram o primado da consciência, anulando qualquer lei ou ordem, face a uma violação da consciência. Raciocínio que aliás tem permanecido até ao presente e constitui também a base para os chamados julgamentos de crimes contra a Humanidade.

Jesus modestamente não extravasou os limites da sua soberania (Luc.12:13,14). Já outros não se coíbem de dela se apropriar amplamente, quer auto designando-se governantes por direito divino, mesmo que de Deus não tenham recebido qualquer mandato. No entanto, ele mesmo usou sua consciência na aplicação e extensão que considerou necessário, mostrando em magistral exercício, como a consciência individual complementa a Lei de Deus na sua forma escrita. Ele mostrou que a Lei de Deus não está escrita na pedra, mas deve estar escrita no coração. (Jer. 31:33)

Há vários exemplos em como Jesus reinterpretou a Lei com base na sua consciência. Um exemplo tocante, é o da cura da mulher com o fluxo de sangue, que pela Lei ao entrar no meio da multidão incorreu numa violação da mesma. A posterior cura da mulher e a frase de Jesus: "Filha, a tua fé te fez ficar boa; vai em paz." (Luc. 8:48) Realço a palavra "vai em paz", após uma violação clara da Lei.

O aproximar-se e o tocar os leprosos, foram também violações directas da Lei. Podemos pensar que para os curar isso se fez necessário, o que é falso, pois Jesus foi capaz de curar à distância.

Jesus mostrou que a soberania divina, expressa através da consciência, é capaz de grandes feitos espirituais, conforme ele reconheceu no oficial do exército romano, quando lhe reconhece uma fé enorme. (Mat. 8:5-13) É bom lembrar que os que foram escolhidos como apóstolos, eram israelitas e de facto vez após vez, lhes censurou a falta de fé (Mat. 8:6; mat. 14:31; Mat. 16:8; Mat. 17:20) Estas coisas podem ter desenvolvimentos em termos de argumentação, deveras curiosos. Vejamos: se gentios à luz de Deut. 14:21, ao não estarem debaixo da Lei, podiam comer animais não sangrados sem pecar, então ao ficarmos libertos da Lei, de igual forma ficamos livres dessa exigência. Nesse contexto devem ser entendidas as palavras de Paulo "...comei de tudo o que se vende no açougue..." (1 Cor. 10:25) A consciência pode então anular o acessório na Lei de Deus, sendo o acessório a regra, permanecendo os princípios. Como explicou Jesus, é preciso perceber o sentido dela (Mat. 23:23; Mr 2:27)

Nos tempos antigos a soberania de um pater familia era bastante abrangente, incluindo escravos e escravas, as esposas e os filhos. Estes, enquanto debaixo do seu tecto, eram equiparados a bens, na mesmissima categoria das casas, campos, gado e escravos!

Só assim se entende as relações de Abraão com as servas de Sara, não serem equiparadas a adultério! Os  direitos de propriedade, eram expressão da sua soberania e enquanto propriedade podiam ser usados conforme lhe aprouvesse, de forma perfeitamente legítima.

Hoje isto soa-nos chocante, uma terrível coerção da soberania dos outros, que subalterniza, esposa, filhos e escravos. A estes últimos retira-se-lhes o seu estatuto de seres humanos, também eles com direito à expressão da sua soberania.

Não mostra isso uma falha básica na expressão da soberania através da consciência?

Reflectindo nisso, percebemos que a consciência é moldada pelo consenso social e só pode reflectir o nosso progresso enquanto humanidade. Por isso julgar as acções do passado com base nos nossos valores actuais só pode redundar num julgamento injusto. Mas, de igual forma, julgar acções actuais à luz de antigos valores, será igualmente injusto! Deus, ao julgar com base na consciência individual, não comete esse erro.