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sábado, 26 de setembro de 2015

Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão


 
O título da nossa postagem é um velho ditado português que procura transmitir a ideia de que é inútil a alguém treinado numa arte, ser igualmente bom noutra. Por isso, um sapateiro pode ser magnífico, mas não se pode esperar que por isso saiba tocar violino (rabecão). [1]

A expressão proverbial enche-se de significado ainda mais quando a consideramos no contexto da religião. À religião permitimos que diga os maiores disparates, na maior das solenidades, com vénia e respeito. A religião intromete-se, às vezes de forma intolerável, em todos os aspectos da vida humana. Infelizmente, não apenas para opinar, mas muitas vezes para manipular, dirigir e conseguir.

Mas creio que não é difícil compreendermos que alguém com dores nos intestinos, não procure ser consultado por um cozinheiro, mas por um médico! Tal consulta poderia tornar-se até um destino fatal, caso se tratasse de uma peritonite, por exemplo. [2]

No entanto é fantástico como a religião subverte o bom senso, não se coibindo de emitir opiniões médicas! É conhecido que as Testemunhas de Jeová rejeitam as transfusões de sangue. O assunto tornou-se tão embaraçosamente ridículo que agora permitem-se certas fracções, mas não outras. Nenhum texto bíblico suporta esta divisão do sangue em fracções. Trata-se apenas de sapateiros a tocar rabecão.

Basicamente, as Testemunhas de Jeová baseiam-se em dois versículos bíblicos para suportar esta sua posição quanto à não aceitação de transfusões de sangue. O primeiro deles, que toma precedência, foi a ordem dada a Noé depois do dilúvio e da saída da arca e que consideram de carácter universal, uma vez que segundo a Bíblia, toda a Humanidade descende de Noé e dos sobreviventes com ele, ao dilúvio. O texto reza: “Somente a carne com sua alma — seu sangue — não deveis comer.” [3] Reforçam-no depois com as decisões do que assumem como o primeiro concílio apostólico e que toma a seguinte forma: “Pois pareceu bem ao espírito santo e a nós mesmos não vos acrescentar nenhum fardo adicional, excepto as seguintes coisas necessárias: de persistirdes em abster-vos de coisas sacrificadas a ídolos, e de sangue, e de coisas estranguladas, e de fornicação. Se vos guardardes cuidadosamente destas coisas prosperareis. Boas saúde para vós!” [4] Um primeiro aspecto que importa realçar é que as referências ao sangue nos dois contextos parecem claramente de ordem nutricional. Ou seja, parece haver uma proibição quanto a comer sangue. 

Não parece razoável crer que o autor de ambos os versículos pensasse sequer em transfusões de sangue. As Testemunhas de Jeová insistem que sim. Vamos conceder que possa ser uma hipótese possível, mas vamos ser intelectualmente honestos e usar o mesmo raciocínio noutros contextos bíblicos. Vejamos este texto que se encontra numa das epístolas de Paulo a Timóteo: “Não bebas unicamente água, bebe também um pouco de vinho pois faz-te bem às tuas frequentes indisposições.” [5] É razoável pensar que este era apenas um conselho bem intencionado de Paulo ao seu jovem amigo, pois talvez a água disponível a Timóteo pudesse não ser da melhor qualidade e evitaria problemas de estômago bebendo vinho. Já não parece razoável que aplicássemos este texto como sendo uma obrigatoriedade de que todo o cristão “com frequentes indisposições”, deva beber um pouco de vinho; e que não fazer assim, seja demonstrativo de falta de fé!

Mas podemos ir mais longe e supor que de novo o Divino Mestre, Jesus em pessoa, regressasse a esta Terra e imaginemos o diálogo:
— Olha Mestre, nós cumprimos todos os teus mandamentos, e nem deixamos que nos transfundissem sangue! 
— Mas quem é que vos impediu de tomar transfusões de sangue? 
Com ar certamente atónito mostrarão ao Divino Mestre que a descida à Terra lhe deve ter transtornado o seu cérebro perfeito e lhe mostrarão pressurosos o texto de Atos, já atrás mencionado: — Vede Senhor, aqui… — e apontarão com o dedo os versículos exactos. 
— Oh Valha-me Deus! Mas onde se fala aqui de transfusão de sangue? 
— Mas Senhor tomá-lo nas veias é mesmo que comê-lo! — Jesus dará um profundo suspiro, semelhante ao que deu quando disse “perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” e explicará: 
— Aqui nem fala sequer em comer sangue… 
Todas as caras estarão espantadas com esta revelação e ainda em plena dissonância cognitiva dirão em protesto: 
— Mas está lá escrito “abster-vos de sangue”! 
— Pois está! Isso quer dizer que os cristãos devem ser pacíficos e pacificadores, não devem manchar-se de sangue, como que tirando a vida de outra pessoa. 
 O silêncio será sepulcral, até um mais afoito notar:
— Como pode ser isso? Lá também diz para se abster de estrangulado, estrangulado  não é sangrado, por isso...
Jesus terá um sorriso resignado e compreensivo e dirá:
— O que se queria dizer com isso, é que até a morte dos animais devia ser compassiva. O animal não precisa sofrer para morrer ou ficar a escorrer sangue até se esvair, entendeis?
— E então como devemos abster-nos de coisas sacrificadas a ídolos?
— No sentido de que não há espiritualidade maior do que uma relação pessoal com Deus, que não se estabelece por sacrifício nenhum, mas pelo amor…
— E então como devemos abster-nos da fornicação?
— No sentido de que o amor, a intimidade e o afecto não se compram, partilham-se liberalmente. Se o amor se pagasse, eu que dei a minha vida por vós receberia apenas vinte moedas?

Seria nesta altura que alguns se afastariam do Mestre dizendo:
“Esta palavra é chocante; quem pode escutar isso?” [6]

[3] Génesis 9:4
[4] Atos 15:28, 29
[5] 1 Timóteo 5:23 versão A Bíblia para Hoje
[6] João 6:60

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Soberania



O conceito de soberania está ligado a autoridade, a poder. Por isso a temática em volta de Deus meia-volta aqui vem ter. Soberania tem também que ver com autodeterminação, livre-arbítrio. Não pode haver uma expressão de soberania sem verdadeira escolha, pois sem escolhas, não faz sentido. Mais uma vez estamos num exercício de exegese sobre o escrito sagrado. 

Deus ao criar o Homem, e ao conceder-lhe o livre-arbítrio, transfere uma parte da sua soberania, assumida como total, plena e universal para nós. Deus dignifica-nos ao conceder-nos, assim, uma qualidade que é inerentemente sua. A nossa soberania resulta da que nos foi concedida. 

Assim, qualquer outra soberania para além da de Deus, é a individual. As nações têm uma, porque enquanto cidadãos lha concedemos. 

Diz a teologia das Testemunhas de Jeová, que ao invés da grande luta cósmica entre o Bem e o Mal, a grande questão é saber quem manda, ou seja trata-se de questionar a soberania universal de Deus [1]. A questão é então a seguinte: será que a Bíblia se resume afinal a uma defesa da soberania de Deus? Um apelo às armas, para que apoiemos a Deus? 

Em princípio isso poderá parecer assim, se encararmos o Diabo como um usurpador pleno de Deus, papel que nas Escrituras nunca reveste. 

E perguntais, então e o Reino, não é uma expressão de soberania? Sim, de facto o é, mas apenas num reflexo dela, o seu papel esgota-se mal se alcança a redenção da humanidade. Como expressão da soberania de Deus, seria pálida e fraca, quando considerada à escala da eternidade. Aliás, o Reino é um mero arranjo temporário [2]. Mesmo a representação da soberania de Deus por meio da realeza israelita foi um arranjo espúrio ao pensamento de Deus, conforme se pode ver do diálogo que Deus teve com o profeta e sacerdote exemplar Samuel. No diálogo havido entre ambos, o pedido de um Rei por parte dos israelitas foi comparada a uma rejeição do próprio Deus! [3] Seria assim estranho que o facto de haver reis em Israel, fosse uma representação adequada da soberania de Deus. Mas então e Jesus ser Rei? Não é isso uma manifestação de que o que estava em causa era a soberania de Deus? Lembrem-se que o arranjo do Reino, visa a redenção do Homem, o restabelecimento da relação com Deus; como dizia Paulo, a pregação do vindouro Reino, era um “ministério da reconciliação” [4]! O que foi rompido e urge restabelecer é a relação com Deus! E como se quebram as relações? Pela falta de confiança! 

Olhemos então para o relato de Génesis para verificar essa quebra de confiança entre o Homem e Deus. Adão toma Deus como mentiroso quando aceita comer do fruto. A serpente mente, o homem morre [5]. A mulher foi enganada por esta mentira, conforme atesta mais tarde Paulo [6]. O que é certo é que aceitar Deus como mentiroso, atirou-nos para longe da sua intimidade, deixou-nos sujeitos a todos os enganos e astúcias maldosas, para nosso próprio mal [7]. Nesta tentativa de reconciliação, de retoma da relação com Deus, este sempre andou a estender-nos a mão, a tentar ajudar-nos, seus apelos constantes são no sentido de que confiemos n'Ele [8]. Não é Ele o mentiroso o que nos quer privar do que é bom, mesmo que lhe chamem “conhecimento do que é bom e mau” [9]. Mas atenção, o mentiroso é o Opositor! É o Diabo que nos afasta de Deus em permanência, conforme a denúncia de Jesus [10] ou como se torna visível no livro de Jó quando tomamos a atenção devida. Ali em Jó, apesar dos seus esforços de tentar separar o Homem da intimidade de Deus [11], ele não se atreve a ultrapassar os limites da Soberania de Deus [12]. Se essa fosse a grande questão, ele não esperaria a permissão de Deus para actuar e não se manteria nos limites impostos por esta [13]. 

Portanto a ideia de que o grande drama universal é uma questão de soberania, só se pode originar de mentes preocupadas com quem manda! Jesus, avisou sobre esse perigos por diversas vezes, sabendo que a tentação do poder é enorme. Jesus disse-lhes: “Mantende os olhos abertos e vigiai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus.” [14] Sendo que disse também que os cristãos não deviam almejar o poder mas antes o servir, o ministrar aos outros [15]. Quem de facto estava preocupado com questões de soberania eram os inimigos de Cristo[16], os que se afoitaram a pendurá-lo numa estaca sobre a acusação de blasfemo! Para esses tudo não passava de estratégia política, mesmo que inadvertidamente cumprissem profecia [17]. 

Mais uma vez, esta questão teológica de afirmar que o que está em causa no grande drama universal é a Soberania de Deus, é um conceito sem grande suporte numa análise cuidada do texto sagrado. A teologia das Testemunhas é uma construção frágil, e apenas resulta porque a maioria se remete a seguir sem analisar profundamente a questão. A liderança sabe disso e também não estimula um estudo profundo, que vá para além da superfície. Ganham peso as palavras de Jesus quando disse aos que ensinavam a Palavra no seu tempo: “Deixai-os. Guias cegos é o que eles são. Se, pois, um cego guiar outro cego, ambos cairão numa cova.” [18] A liderança tejotiana há muito que lá caiu e tudo o que tem feito é cavá-la ainda mais. Que lhes adianta a sua obra de pregação? Arrastarem rebanhos de ingénuos que como Eva, vão atrás de um pretenso “conhecimento”, que é afinal uma “astúcia” para os levar ao engano? 

E tal como os fariseus têm cumprimento nela as palavras de Jesus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque percorreis o mar e a terra seca para fazer um prosélito, e, quando se torna tal, fazeis dele objecto para a Geena duas vezes mais do que vós mesmos.” [19] 

 [1] Por defeito a soberania de Deus é sempre Universal, e até mesmo meta-universal! Ela tem de alcançar o terreno e o espiritual pelo menos, ou nunca fará sentido. 
[2] Apocalipse 20:4 “E passaram a viver e reinaram com o Cristo por mil anos.” 
[3] 1 Samuel 8:6, 7 “Mas a coisa era má aos olhos de Samuel, visto que haviam dito: “Dá-nos deveras um rei para nos julgar”, e Samuel começou a orar a Jeová. Jeová disse então a Samuel: “Escuta a voz do povo referente a tudo o que te dizem; pois, não é a ti que rejeitaram, mas é a mim que rejeitaram como rei sobre eles. 
[4] 2 Coríntios 5:18 “Mas, todas as coisas são de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por intermédio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação.” 
[5] Génesis 3:4 “A isso a serpente disse à mulher: “Positivamente não morrereis.”” 
[6] 1 Timóteo 2:14 “Também, Adão não foi enganado, mas a mulher foi totalmente enganada e veio a estar em transgressão.” 
[7] Mas, tenho medo de que, de algum modo, assim como a serpente seduziu Eva pela sua astúcia, vossas mentes sejam corrompidas, afastando-se da sinceridade e da castidade que se devem ao Cristo. 
[8] Provérbios 3:5,6 “Confia em Jeová de todo o teu coração e não te estribes na tua própria compreensão. Nota-o em todos os teus caminhos, e ele mesmo endireitará as tuas veredas.” 
[9] Génesis 3:5 “Porque Deus sabe que, no mesmo dia em que comerdes dele, forçosamente se abrirão os vossos olhos e forçosamente sereis como Deus, sabendo o que é bom e o que é mau.” 
[10] João 8:44 “Vós sois de vosso pai, o Diabo, e quereis fazer os desejos de vosso pai. Esse foi um homicida quando começou, e não permaneceu firme na verdade, porque não há nele verdade. Quando fala a mentira, fala segundo a sua própria disposição, porque é um mentiroso e o pai da [ mentira ].” 
[11] Jó 1:10 “Não puseste tu mesmo uma sebe em volta dele, e em volta da sua casa, e em volta de tudo o que ele tem? Abençoaste o trabalho das suas mãos, e o próprio gado dele se tem espalhado pela terra.” [12] Jó 1:11 “Mas, ao invés disso, estende tua mão, por favor, e toca em tudo o que ele tem, [ e vê ] se não te amaldiçoará na tua própria face. ”” 
[13] Jó 1:12 “Por conseguinte, Jeová disse a Satanás: “Eis que tudo o que ele tem está na tua mão. Somente contra ele próprio não estendas a tua mão! ” De modo que Satanás saiu de diante da pessoa de Jeová.” [14] Mateus 16:5. No primeiro dos Evangelhos que se supõe ser de Marcos este texto adquire a seguinte redacção, deveras curiosa: “E ele começou a ordenar-lhes expressamente, dizendo: “Mantende os olhos abertos, acautelai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes.” (Mr 8:15) A expressão “fermento de Herodes” é inequivocamente uma menção política, denunciando aquela política de se manter no poder a todo o custo! A redacção de Lucas 12:1 deixa de fora os saduceus e Herodes. 
[15] Mateus 20:25-27 “Jesus, porém, chamando-os a si, disse: “Sabeis que os governantes das nações dominam sobre elas e que os grandes homens exercem autoridade sobre elas. Não é assim entre vós; mas, quem quiser tornar-se grande entre vós tem de ser o vosso ministro, e quem quiser ser o primeiro entre vós tem de ser o vosso escravo.” 
[16] João 11:48 “Se o deixarmos assim, todos depositarão fé nele, e virão os romanos e tirarão tanto o nosso lugar como a nossa nação.” 
[17] João 16:49-51 “Mas um certo deles, Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: “Vós não sabeis nada e não deduzis logicamente que é para o vosso proveito que um só homem morra a favor do povo e não que toda a nação seja destruída. ” Isto, porém, não dizia de sua própria iniciativa; mas, porque era sumo sacerdote naquele ano, profetizava que Jesus estava destinado a morrer pela nação.” 
[18] Mateus 15:14 
[19] Mateus 23:15

domingo, 3 de agosto de 2014

Os amigos do Diabo



Pintura de Hyeronimous Bosh

Alguém disse que “...o Diabo tem muitos amigos, mas não é amigo de ninguém...” frase esta que demasiadas vezes se tem revelado genuína. Pode parecer contraditório que alguém queira amizade com tal personagem malevolente e traiçoeira, mas quando vemos no mundo real os admiradores de ditadores e criminosos de guerra, devemos procurar as razões da amizade em outra parte. Nem sempre a amizade resulta desinteressada, de modo que certamente os amigos do Diabo buscam com ela alguma vantagem. 

Nem sempre é clara essa amizade, assim como nem sempre é clara a vantagem. Mas os psicopatas têm uma racionalidade que a razão desconhece e são esses os que mais buscam a amizade do Diabo. 

A questão precisa contudo recuar no tempo: Donde surgiu o Diabo?

Num mundo influenciado pelo pensamento judaico-cristão até ao excesso, o Diabo parece ser quase tão antigo como o Deus bíblico. Faz parte do grande drama cósmico que nos arrasta na sua esteira até à consumação dos séculos, em que se espera, finalmente o mal tenha fim, vencido pelas forças do Deus Bom. De facto, o Diabo é o mais perto do dualismo que o monoteísmo judaico-cristão consegue chegar. Ele, o Diabo é absolutamente necessário para que um mundo terrível e abundante em maldade, possa coexistir com um Deus primariamente Todo-Poderoso e simultaneamente amoroso. Não que a presente situação acabe a abonar em favor Dele, mas confere-Lhe atenuantes. 

Aliás se lermos o AT (escritos hebreus) não encontramos a personagem, a não ser aqui e ali, meio envergonhada e sempre subserviente do Todo-Poderoso. Não fosse sermos acusados de preconceito e quase diríamos que o Diabo dos judeus é um Diabo tímido, destinado a fazer o trabalho sujo que Deus por alguma razão não quer fazer. Temos os sacrifícios destinados a Azazel [1], que os judeus deviam fazer a par dos sacrifícios ao Deus, Jeová; mostrando uma situação de igualdade entre os dois, num dualismo expresso.[2] Embora possa resultar numa surpresa para o crente, para o historiador talvez não seja, porque vê nisso um reflexo do pensamento da época. Israel não vivia numa redoma e era permeável aos pensamentos dos seus vizinhos, nomeadamente cananeus, babilónios e egípcios. Estes vizinhos tinham nas suas mitologias personagens que travavam a Grande Batalha Cósmica contra as forças do mal. Podemos dizer que, na sua essência, eram dualistas: as forças do Bem contra as forças do Mal. Israel, com o passar do tempo, e face a uma nação permanentemente invadida e subjugada, precisou de explicar a ausência de Jeová no seu destino. Uma forma de explicar porque foi necessário o período Macabeu contra o helenismo invasor e mais tarde a subjugação romana. Inseri-lo num drama cósmico, não retirando a sua esperança de uma libertação divina. No cristianismo isto vai tomar uma outra dimensão e passar a outro plano, o plano espiritual, deixando todas as contradições terrestres. 

O Diabo que até aqui era um ser tímido vai ganhando força na chamada literatura apocalíptica que começa a surgir no judaísmo, e que nos foi facultada pelas descobertas nas cavernas de Q'umran. Várias seitas judaicas, entre estas os essénios, viam-se envolvidas neste drama cósmico enquanto eleitos combatentes face a um mundo gigantesco vítima complacente e muitas vezes cúmplice das forças do Mal. O fim é sempre o mesmo, os eleitos das forças do Bem, acabam sempre vencendo o Mal por maior e mais forte que este seja. É permanente contudo esta situação de combate entre Bem e Mal. Sempre o dualismo. Mesmo o cristianismo era uma destas seitas judaicas, antes de se autonomizar. 

Por isso tudo, o Diabo parece pronto e acabado no NT (escrituras gregas), como se não fosse necessário explicá-lo, face às suas poucas aparições no AT. Só a título de exemplo, no AT não temos um único relato de um exorcismo e no NT eles são a eito! Só isso devia arrebitar as orelhas aos mais curiosos. 

Assim o Diabo, é uma criação não de si próprio, mas de homens perturbados com o problema de fazer coexistir a maldade com um Deus Todo-Poderoso e Bom. Não conseguiram vir com nada melhor do que a invenção de um Diabo, encarnando e dirigindo todas as forças do Mal! 

O Diabo é assim como um amigo imaginário, que tal como os amigos imaginários serve para nos tranquilizar, partilhar as alegrias e compartilhar das tristezas. É o recurso infantil de lidar consigo mesmo. 

Às vezes como humanidade, precisamos de um amigo imaginário. Mas um inimigo também pode fazer as mesmas vezes. Este inimigo imaginário passou a estar demasiado presente durante a Idade Média, onde especialistas teológicos entraram em frenesim com a personagem e perseguiram ferozmente todos aqueles que na sua suspeita pudessem ter algo a ver com o Maléfico. Chegaram a escrever doutos tratados sobre as actividades deste, quais as perguntas adequadas numa excomunhão para obter confissões das mais torpes fantasias, que afinal eram apenas reflexo da sua própria imaginação, muito mais do que de um mal real e concreto. Se ainda se tivessem ficado só pela escrita... Mas a perversidade em nome de Deus ou do Diabo, não sei qual é a mais horrenda. Só sei que foram queimadas pessoas, por serem diferentes, por não embarcarem em idiotices de inimigos imaginários ou por terem outros, não importa! Como disse um destes psicopatas no seu fervor religioso: “Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus!”[3] 

A caça às bruxas, ou seja a demência moral, vai atravessar vários séculos antes que a hectacombe reduza de velocidade e pare. E contrariamente ao que nos querem fazer crer, não há distinção na barbárie entre católicos e protestantes. Ainda subsiste no catolicismo como “Congregação para a doutrina da fé”. [4] No domínio protestante temos as Comissões Judicativas das Testemunhas de Jeová, que mais não são que tribunais eclesiásticos que julgam apostasias. [5] Apenas não queimam ninguém na fogueira ou praticam a lapidação, porque os Estados se fartaram dos disparates da religião e sensatamente se tornaram mais seculares. 

Ambos, quer sejam católicos ou protestantes, acham que toda a voz diferente, é a voz do Diabo. E embora se digam cheios de fé, parecem viver aterrados no medo do Diabo. Palpita-me que não acreditem que Deus seja Todo-Poderoso e devessem ser eles os primeiros a serem julgados. Nos seus medos, na sua fraqueza moral ceifaram muitas vidas. Não importa quantas foram, é irrelevante. Morrer por causa de uma fantasia criada por homens perturbados, mesmo que só uma vida fosse ceifada, já seria de mais. Para colocar as coisas na sua proporção imagine ser condenado porque admira o Darth Vader dos filmes Guerra das Estrelas[6], tendo em sua casa fotografias dele, ou talvez o capacete! 

Entende quão ridículo seria? Sim, compreendo o contexto histórico, toda a população partilhava da mesma fantasia, excepto os diferentes... Não se esqueça que por causa de fantasias semelhantes alguns ainda hoje podem pagar um alto preço, por serem diferentes dos outros, por não aceitarem as fantasias dos outros, as arbitrárias linhas de fronteira definidas pelos homem. E porque os contextos mudam, e porque mudam as fantasias, as linhas de fronteira e os costumes, não acham que faz sentido ao invés de matar, ostracizar, faz mais sentido tolerar? 

É que a intolerância, o rigor, o zelo, mesmo que aparentemente bem intencionado, apenas produz vítimas; fazendo com que muitos dos devotos de Deus, acabem sendo afinal verdadeiros amigos do Diabo.

[1] Levítico 16:10 “mas o bode sobre o qual recaiu a sorte para Azazel deve ser posto vivo perante Jeová para fazer expiaçãopor ele, a fim de ser enviado ao ermo, para Azazel.”
[2] Levítico 16:8 “E Arão tem de tirar sortes sobre os dois bodes, uma sorte para Jeová e outra sorte para Azazel.”
[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Cruzada_Albigense#A_cruzada_dos_bar.C3.B5es_ou_guerra_rel.C3.A2mpago [4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Inquisi%C3%A7%C3%A3o
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Apostasia
[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Imp%C3%A9rio_Gal%C3%A1ctico_%28Star_Wars%29

terça-feira, 29 de abril de 2014

Renunciar à injustiça




Em "A Sentinela" de 15 de Julho de 2014, na página 12 e no parágrafo 2 está escrito:


Analisemos isso num exercício de auto-referenciação: 
- É ou não injustiça, desassociar pessoas por terem aceite prestar Serviço Cívico ao invés de Serviço Militar antes de o Corpo Governante dizer que isso é permitido?

- É ou não injustiça, no passado alguém ter sido desassociado por ter aceite tratamento à base de sangue e agora esse tratamento ser permitido porque o Corpo Governante autorizou?

- É ou não injustiça, dizer mal da ONU e depois o Corpo Governante autorizar a inscrição nela como Organização Não Governamental usufruindo dos direitos que esta concede às organizações que credita como tais?

- É ou não injustiça, declarar-se a favor da neutralidade e depois o Corpo Governante autorizar o investir em armamento?

- É ou não uma injustiça, desassociar pessoas pelo uso do tabaco e depois o Corpo Governante autorizar investir na indústria tabaqueira?

- É ou não uma injustiça, permitir que pedófilos continuem a sua predação sem serem entregues à justiça, só porque o Corpo Governante acha que deve manter uma política que se revela desastrosa para o bem-estar das crianças no seu seio e um paraíso para pedófilos?

- É ou não uma injustiça, que face a uma enorme crise, o Corpo Governante imponha às congregações uma espécie de dízimo, obrigando estas a envio regular de uma contribuição? 

- É ou não uma injustiça, que achando o fim tão próximo, continue empenhada em projectos de construção megalómanos? 

- É ou não uma injustiça, que se altere a teologia só para reforçar a autoridade do Corpo Governante, que é agora considerado como sendo “o escravo fiel e discreto”? 

- É ou não uma injustiça, que o Corpo Governante condene a “educação superior”, quando beneficia da mesma, quer pela tecnologia que usa, quer pelo progresso médico? 

- É ou não uma injustiça, o título de “Corpo Governante”, quando o próprio Jesus o condenou? Veja Mateus 20:25, 26 

Se existe hoje quem se possa colocar no papel de Corá, Datã e Abirão, terá de ser o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, que vai muito mais longe do que estes foram e se quer colocar no lugar do próprio Cristo, subtraindo a este a liderança da Congregação! Afinal as Testemunhas de Jeová sinceras, estão a seguir a Deus ou a homens? Jesus bem disse: “É em vão que persistem em adorar-me, porque ensinam por doutrinas os mandados de homens.” (Mateus 15:9)

sábado, 1 de março de 2014

Você Fará Sacrifícios Pelo Reino?



Estes exercícios de auto-referenciação viciaram-me. Cá vai portanto, os comentários para o artigo com o tema em epígrafe, em A Sentinela! de 15 de dezembro. Não se esqueçam que podem procurá-la aqui http://www.jw.org

Têm de me desculpar, comentar um pouco menos, mas os artigos são de uma pobreza intelectual e exegética que até dá dó. Nota-se nestes últimos artigos, o medo que ataca o Corpo Governante, a cúpula do movimento das Testemunhas de Jeová, e que estabelece a teologia e as regras que os seguidores devem aceitar. Apesar de parecer, pela leitura das publicações, que tudo se trata de voluntarismo por parte dos súbditos, isso é bastante ilusório, pois existe uma vigilância apertada nas congregações que denunciam todo o comportamento desviante. Os membros podem mesmo vir a ser expulsos por falhas na aceitação da teologia e/ou regras. Este é um assunto sério entre eles, porque os membros não podem ter qualquer contacto com aqueles que são expulsos. Recentemente um rapaz, pai de filhos, foi expulso e acabou por se suicidar. Certamente o facto de não poder contactar com os membros da sua família, deve ter contribuído para este acto desesperado [1]. Mas não será por isso que o Corpo Governante alterará as suas regras humanas, ensinando mandados de homens como se de Deus se tratassem [2].

Passemos então aos comentários aos diversos parágrafos do artigo de estudo. Não comentaremos todos os parágrafos como já dissemos.

Parágrafo 1
O Reino era a coisa mais importante na sua vida.
Comentário
Confunde-se sempre o Reino com a Organização. É uma confusão propositada e alimentada, isso é notório em todo o artigo.

Parágrafo 2
...a obra de pregação está avançando...
Comentário
Por acaso esta afirmação não é verdadeira. A fazer fé nos números a obra está a estagnar. E nem é de agora. Para mais pormenores sigam a ligação: http://www.jwfacts.com/watchtower/statistics.php

Parágrafo 2
...ele é vital para os interesses do Reino.
Comentário segundo
A questão devia ser um pouco mais esta: Se acabar a Organização, acaba o Reino? Parece-me que não, se é que alguma lição se pode tirar da destruição do Templo em Jerusalém em 70 EC.

Parágrafo 3
Todos nós, porém, devemos fazer uma auto-análise.
Comentário
Quem devia fazer uma auto-análise era o Corpo Governante. Este apenas quer assegurar que continuará a ter sentido a sua existência, mesmo que a sua teologia tenha de sofrer uma esforçada torção. Muitas delas dão mesmo uma volta de 180º.

Parágrafo 3
Será que podemos fazer mais sacrifícios pelo Reino? Como estamos usando nosso tempo, dinheiro, energia e habilidades? Que cuidado devemos ter?
Comentário segundo
Estão a ver como a confusão entre Reino e Organização é forçada? Mas as perguntas que o Corpo Governante devia fazer era: Porque estão os publicadores a desanimar? Porque cada vez o movimento atrai menos pessoas? Será que isso se dá porque as tretas são demasiado evidentes?
Não despercebam que a Organização está a demandar tudo dos seus súbditos: tempo, dinheiro, energia e habilidades! Se censuram a IURD por esmifrar os seus devotos, deviam olhar-se ao espelho e ver que não esmifram menos.

Parágrafo 3
...sacrifícios voluntários, o que aumentará nossa alegria.
Comentário terceiro
Aqui vem-me à lembrança um livro [3] em que o autor diz que em dadas circunstâncias, em especial quando não há alternativas, nós humanos fazemos a síntese da felicidade. Ou seja, uma situação que não é nada feliz, é interpretada e sentida como produtora de felicidade. Um pouco como uma pessoa com uma unha encravada e na impossibilidade de resolver o problema diga: “A principio custava-me, mas agora entendo que esse é o modo que a natureza escolheu, portanto sinto-me feliz por estar a experimentar em primeira mão, um fenómeno natural.” A dor está lá, mas a leitura que se faz dela é outra. As Testemunhas de Jeová quando contam as suas “experiências” fazem isto muitas vezes.

Parágrafo 4
Os sacrifícios eram necessários para que o povo tivesse o favor de Jeová.
Comentário
Consegue apanhar o paralelo que é possível fazer com as idas a pé a Fátima?
No fundo trata-se do velho negócio religioso de barganhar com Deus: Se eu te fizer isto, tu dás-me aquilo.
Um bocado infantil, não acham? Não consigo imaginar Deus a negociar assim... Mas ao que parece o Corpo Governante acha perfeitamente plausível.

Parágrafo 5
...até mesmo os pobres podem fazer sacrifícios...
Comentário
Infelizmente os pobres são sempre sacrificados. Para além de explorados e daí serem pobres, são também enganados por espertalhões interessados em tirar-lhes o pouco que ainda têm.

Parágrafo 6
...animal...um sacrifício...
Comentário
É preciso ainda encarar o facto de que sacrifícios animais, são um barbarismo, mesmo que isso seja uma ordem de Deus. Eu acho que é um aproveitamento de uma velha tradição, por parte de Deus e não propriamente uma invenção ou ordem Deste. Mas admito que isto é uma interpretação não exegética.

Parágrafo 6
Jeová especificou que, se alguém numa condição impura oferecesse um sacrifício de participação em comum, o que incluía ofertas voluntárias, ele seria decepado do povo de Deus.
Comentário segundo
Devemos perguntar o que pensará Jeová de uma Organização que abriga pedófilos no seu seio?

 Parágrafo 7
...construção de Salões do Reino...
Comentário
Estas construções apenas aumentam o património imobiliário da Organização! Os Salões embora mantidos localmente, não são propriedade da congregação ou congregações locais. Aliás, a Organização vê com algumas reticências qualquer Salão que não seja ou não possa tornar-se propriedade sua. Para quem acha que o fim está próximo, a sua ânsia de se tornar proprietária é deveras curiosa.
Aliás é interessante considerar quantas sinagogas construiu Jesus, ou quantos edifícios de reunião construíram os primeiros cristãos. Ao que parece, e contrário à Organização, os cristãos reuniam-se em casas particulares. Só depois na apostasia é que começaram a construir igrejas. Querem ver que o Corpo Governante também está contaminado com apostasia?!

Parágrafo 9
...não tinham muito tempo e deviam aproveitá-lo ao máximo para cuidar das coisas importantes.
Comentário
Aqui nota-se que o mais importante para o Corpo Governante é manter a máquina a rolar! A mensagem é: não percam tempo com o que vos faz felizes, que a vossa felicidade é sacrificarem-se pela Organização!

Parágrafo 10
...dezenas de milhões de dólares são usados par cuidar dos gastos com superintendentes viajantes, pioneiros especiais e missionários.
Comentário
Os aqui mencionados são os funcionários teocráticos que a Organização inventou para manter a máquina em movimento, numa cadeia hierárquica bem definida, e que claramente contraria a ideia de uma organização sem classes, como costumam dizer sem clérigos nem leigos. O que é certo é que têm estes “profissionais”.
E se gastam dinheiro com eles, acho bem estranho como isso tem base bíblica, pois pelo que sei Paulo como missionário não consta que recebesse, nem qualquer outro!

Parágrafo 11
Jeová se agrada muito dessa disposição.
Comentário
O contexto mostra que os membros deviam juntar dinheiro para entregar depois na congregação. E concluem com essa frase. Mas o que me intriga, porque há-de Jeová agradar-se com essa disposição? Acaso recebe por transferência bancária?

Parágrafo 12
Ele promete nos ajudar quando nos sentimos cansados.
Comentário
O que se quer dizer é que ninguém tem desculpa e nem pensem dizer que estão cansados! Isso é apenas uma fraca desculpa para não dar, para se recusar ao sacrifício.
E tem mais, reparem bem na subtileza, se ficarem encrencados não venham à Organização pedir ajuda, aí quem dá é Jeová! Mas o dinheiro foi para quem mesmo? Não são mesmo muito diferentes dos católicos ou da IURD, pois não?

Parágrafo 15
...por isso trabalhavam na construção durante o dia e, à noite, iam para os campos plantar. Um excelente exemplo de sacrifícios a favor do Reino! Isso nos faz lembrar os irmãos da Macedónia, no primeiro século. Eles viviam em extrema “pobreza”, mas ainda assim rogavam pelo privilégio de participar...
Comentário
A comparação é perversa: num caso o único beneficiado materialmente é a Organização, no primeiro século tratava-se de ajudar materialmente pessoas carentes, não qualquer organização teocrática existente.
Os aspectos de ajuda humanitária são um aspecto sempre secundário para a Organização!

Parágrafo 15
Que cada um de nós também 'dê de modo proporcional à bênção que Jeová nos tem dado'.
Comentário
Parecemos a IURD!

Parágrafo 16
Precisamos manter o equilíbrio ao cuidarmos das nossas principais responsabilidades, ou seja, as familiares e as espirituais.
Comentário
Depois de citarem o exemplo de cristãos que de dia trabalharam na construção de um Salão e de noite iam cuidar dos seus campos, como podem vir com esta hipocrisia de “manter o equilíbrio”? Que equilíbrio há em trabalhar noite e dia?

Parágrafo 18
...participar o máximo possível...
Comentário
No parágrafo 16 falavam de equilíbrio, ainda se lembram?


Talvez pense que caricaturo em demasia, nos comentários que faço. Admito que possam ter alguma razão. Mas esta caricatura é necessária para trazer à evidência o que precisa ser evidenciado. Presumo que para as Testemunhas de Jeová sinceras poderá parecer chocante, mas isso é apenas porque tal como Paulo depois da cegueira do deslumbramento as escamas têm de cair dos olhos, aqui claramente olhos de entendimento. O exercício pode ser doloroso, mas como se diz: A verdade dói!




[2] Marcos 7:7 “É em vão que persistem em adorar-me, porque ensinam por doutrinas os mandados de homens.”

[3] “Stumbling on Hapiness” de Daniel Gilbert

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A dúvida na espiritualidade



Muitos dos apologistas das Testemunhas de Jeová que intervêm em fóruns e blogues, costumam acusar os pretensos apóstatas como vazios de ideias e destruidores de esperanças exegeticamente legítimas. Acusam-nos de apenas serem capazes de lançar dúvidas, de destruírem e nunca construírem.

Contudo partem sempre de um pressuposto que fica sempre por provar, que é: A verdade é propriedade das Testemunhas de Jeová! Ou seja, acham que a teologia que defendem é de todas as mais certa. Para além de revelar uma presunção e arrogância que só pode ser defendida com base na fé, carece de uma confirmação, mesmo que nos terrenos da exegese bíblica, sem extravasar para outras considerações igualmente oportunas. 

O que esse tipo de declarações parece ignorar sem grande reflexão adicional, é a importância da dúvida na construção da fé. [1] Se recuarmos aos primórdios do movimento e ao seu fundador Charles Taze Russell [2] este foi apenas porque nutriu dúvidas, sobre as crenças que tinha sobre Deus e seu propósito que foi levado a um estudo das Escrituras. Foi esta busca que mais tarde veio a resultar numa interpretação diferenciada das demais e originar a actual organização das Testemunhas de Jeová, tão empenhada no proselitismo. 

Mesmo as suas mudanças em relação aquilo que consideram teologia ortodoxa, implica que pelo menos o Corpo Governante, autoridade máxima no seu seio, tenham dúvidas. Se apenas tivessem certezas, que necessidade haveria de anunciar “novas luzes” ou “novos entendimentos”? Perante a dúvida podemos reagir de uma maneira construtiva, que é analisar a questão e tirar conclusões. Ou reagir negativamente, defendendo irracionalmente uma posição, tornando-se dogmático. Quanto maior a dúvida maior o dogmatismo, como se a defesa intransigente transformasse magicamente uma dúvida numa certeza. Tal postura não pode ser confundida com fé, ou como alguns gostam de dizer “inabalável fé”. Porque a fé não é uma crença cega ou irracional, pelo menos conforme a Bíblia a define em Hebreus 11:1: “ A fé+ é a expectativa certa* de coisas esperadas,+ a demonstração evidente* de realidades,* embora não observadas.+” 

A fé exige uma postura racional, senão como pode ser uma “expectativa certa”? Para estar “certa” é preciso confirmá-la, avaliá-la, ponderá-la. Como pode haver “demonstração evidente”, sem ser analisando os diversos passos da “demonstração”? Poderíamos comparar a fé à hipótese científica. Esta ainda não tem confirmação, mas procura uma interpretação para um conjunto de observações e extrapola para acontecimentos que devem esperar ser observados no contexto da sua interpretação. De nenhuma forma pode ser confundida com dogmatismo. Mas certamente a fé pode alocar a dúvida na sua construção. 

Como se pode buscar a Deus, se tem a convicção de O conhecer já? Como se pode julgar conhece-Lo, quando somos criaturas de pó? Como podemos sequer concebê-Lo se nós estamos no domínio material e Ele no domínio espiritual, uma realidade que não nos é acessível? Como é que sendo seres finitos, podemos entender um ser infinito? É preciso aceitar como válida a ideia de que Deus se pode revelar de muitas maneiras e que algumas delas, nos sejam de momento absolutamente desconhecidas. Se é assim, porque não a dúvida? Esse motor de toda a busca. 

Quem não tem dúvidas deixou de buscar a Deus. E quem deixa de buscar a Deus, está condenado a perdê-Lo, a acabar sem Deus. Encontrará na sua insegurança um sucedâneo, mas nunca alcançará a realidade Dele. Pior ainda, nem sequer se aproxima Dele, mas afasta-se. 

Jesus na sua renovada visão do Deus Antigo, provou que esta busca nunca pára, não se pode estacionar numa posição. Estacionar é perdê-Lo. Portanto o que esses apologistas das testemunhas parecem ignorar é que não há fé, nem Deus, sem dúvidas que a confirmem e estimulem a busca Dele. 

Afinal o que o levou a converter-se ao movimento? Não foram as suas dúvidas, a sua busca por Deus, a sua necessidade espiritual? A menos que seja filho de Testemunhas de Jeová e as suas crenças resultem mais de imposição do que de uma busca espiritual pessoal. Portanto se agora está convencido da 'verdade' conforme defendida pelo movimento, lembro-o que o que o trouxe a ele foi precisamente a dúvida. Duvidar não é mau, trouxe-o à 'verdade'. Porque é que agora que pensa tê-la encontrado, ele se torna má? E se se tornou, como pode ter a certeza que a transformação da dúvida numa coisa má se deu depois que entrou no movimento e não estará mais à frente? Ou seja qual é afinal o critério que determina quando a dúvida é má ou é boa? 

Os apóstatas estão afinal a fazer-lhes um favor, promovendo a sua espiritualidade, que deve ser afinal o objectivo de todo o crente. Eles estão a ajudá-lo a progredir espiritualmente. Aceite a dúvida sobre assuntos teocráticos, procure esclarecer-se e com isso estará na busca de Deus, estará no percurso mais espiritual que podia desejar.


[1] http://www.ted.com/talks/lesley_hazleton_the_doubt_essential_to_faith.html
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Taze_Russell

Evite ser 'demovido depressa de sua razão'



Já o fizemos anteriormente e voltamos de novo à carga, fazendo uma análise do conteúdo de A Sentinela de estudo de 15 de Dezembro, disponibilizada gratuitamente no site www.jw.org. Tratam-se de considerações breves do primeiro artigo de estudo com o tema acima mencionado. O formato da nossa abordagem será o mesmo, citamos o parágrafo na parte que nos interessa destacar e de seguida o nosso comentário.


Parágrafo 1, 2 ...
sob influência do Diabo recorrem cada vez mais ao engano,
Comentário Este medo é um bocado descabido para quem afirma ter tanta fé em Deus e em vista do que diz em 2 Coríntios 13:8: “Pois, não podemos fazer nada contra a verdade, mas somente a favor da verdade.” Se assim é, não percebo tanto medo, tanta cautela e tanto aviso. Quem pode ter razões para temer é que recorre ao engano. Será que... 

Parágrafo 4 .
..aguardamos a destruição de Babilônia, a Grande, o império mundial da religião falsa.
Comentário Passam este ano 100 anos desde a pretensa entronização do Cristo nos céus em 1914. Todas as explicações para a duração da geração que tinha presenciado o acontecimento com os olhos do entendimento se esgotaram. A última invenção é que a “geração” se refere aos ungidos e ainda há-de haver “ungidos” quando o fim vier. O que acredito, até porque tem vindo a aparecer cada vez mais “ungidos”! Se este conceito num ponto tão fundamental quanto o entendimento do que é esta “geração”, varia tanto, que confiança podemos ter em qualquer outra interpretação provinda da Organização? Aliás 1914 já foi interpretado por esta como o tempo do fim e não como o início do fim. [1] Os malabarismos teológicos da Organização são sempre surpreendentes. 

Parágrafo 4
...por meio da congregação...
Comentário segundo
Visto que é nestas que as pessoas são endoutrinadas nos conceitos da Organização.

Parágrafo 4
Dar atenção a esses alertas frequentes pode fortalecer nossa determinação de prestar a Deus 'um serviço sagrado com nossa faculdade de raciocínio.' - Rom. 12:1
Comentário terceiro
Será servir a Deus ou à Organização? E reparem que o texto menciona 'faculdade de raciocínio'. Que raciocínio haverá ao aceitar sem questionar tudo o que a Organização debita? Ora como vimos no primeiro comentário eles não são de confiança, tendo vindo com o tempo a alterar o que antes defendiam com convicção. Já Jesus dizia que se um cego guiar outro cego, ambos cairiam numa cova. Com isso Jesus quis dizer que nunca devemos entrar em “seguidimos” cegos. 

Parágrafo 5
...alguns na congregação haviam ficado “provocados”, ou perturbados, achando que o dia de Jeová estava prestes a chegar. (Leia 2 Tessalonicenses 2:1, 2)
Comentário
Mas não é precisamente isto que faz a Organização? Não estão sempre a provocar as congregações “achando que o dia de Jeová” está prestes a chegar? Ou estão agora a começar uma retirada estratégica, para nos dizer que não devemos especular, como se toda esta ansiedade pela chegada do dia tivesse sido cultivada de moto próprio pelos publicadores! Quando é que finalmente os iluminados do Corpo Governante assumem que não sabem interpretar adequadamente a Bíblia, pelo menos de modo a que possam impor a sua visão a quem quer que seja? 

Parágrafo 6 
Até que ponto eu amo a verdade? Estou em dia com o entendimento actual fornecido por esta revista e outras publicações baseadas na Bíblia, que são preparadas para a congregação mundial do povo de Deus.
Comentário 
Isto é uma afirmação perversa! Parte da assumpção não provada de que sempre nos dizem a verdade, equiparando o que escrevem à autoridade da Bíblia! Na nota do parágrafo fala que no decorrer da história a apostasia produziu classes, clérigos e leigos. Bom, a Organização e o seu Corpo Governante, produziu governantes e governados. 

Parágrafo 7 
“o amor ao dinheiro é raiz de toda sorte de coisas prejudiciais.” 
Comentário 
Pois, mas e então os investimentos que o Corpo Governante faz, inserem-se em que contexto? Não será neste? Afinal faz sentido uma organização que condena o uso do tabaco e não toma partido nas guerras investir nessas áreas? [2] 

Parágrafo 8 
...havia homens que falavam “coisas deturpadas, para atrair a si os discípulos.”(2 Cor. 11:4, 13; Atos 20:30)
Comentário 
Mas afinal quem é que fala de coisas que nem sequer estão na Bíblia como se estivessem e são por isso mesmo “desordeiros”? Sim a Bíblia não fala sobre vacinas, sobre o ano de 1914, ou sobre a existência de um Corpo Governante, ou fala? E contrário ao que às vezes se faz parecer querer, os que denunciam as falhas teológicas da Organização, não estão na sua larga maioria buscando fazer “discípulos”! Quem os quer fazer a toda a força é mesmo a Organização e para isso tanto insiste na necessidade de uma pregação feita com carácter de urgência, como se o mundo fosse acabar amanhã. Portanto se a alguém se há-de aplicar a Escritura sobre “coisas deturpadas para atrair discípulos” ela parece aplicar-se com perfeição à Organização. 

Parágrafo 8 
Aqueles efésios 'puseram à prova' pessoas que na realidade eram falso apóstolos, homens mentirosos. (Rev. 2:2) 
Comentário 
Então porque não se poderá por à prova o Corpo Governante? O que tem para temer? ~

Parágrafo 9 
...devemos ficar alertas caso alguém que assiste às nossas reuniões na congregação tente nos envolver em conversas que giram em torno de críticas ou de especulações pessoais.
- 2 Tes. 3:13-15 
Comentário 
Espero que tenham a noção de que isso envolve o que vem em A Sentinela! Ou os únicos autorizados a fazerem críticas e terem especulações pessoais são os velhos de Brooklyn sentados como Corpo Governante? 

Parágrafo 10 
...tradições 
Comentário 
Esta defesa das “tradições” é nova e leva a Organização para fora do conceito de sola scriptura, tão querido desde Lutero à interpretação protestante. Será que o Corpo Governante está a fazer uma inflexão ao catolicismo? 

Parágrafo 10 
...promovidas como se tivessem o mesmo valor dos ensinamentos das Escrituras. 
Comentário 
Mas será que o Corpo Governante não se enxerga, não tem um espelho diante de si, quando escreve estas coisas? De facto o Corpo Governante puxou para si a competência de emanar ensinamentos com o mesmo valor dos que estão nas Escrituras! Pois, como pode desassociar alguém por apostasia, se não é assim? 

Parágrafo 13 
A predita apostasia se revelou muito tempo atrás e continua até hoje. 
Comentário 
E então porque a Torre, a Organização, o Corpo Governante não podem ser um reflexo dessa apostasia? Só porque juram que não? Lembram-se, que os efésios puseram à prova? Devemos fazer o mesmo ao que nos quer ensinar o Corpo Governante. No mínimo é da mais elementar justiça. 

Parágrafo 14 
Para cumprirmos essa comissão, precisamos ser zelosos no ministério. 
Comentário 
A única coisa que parece realmente importante para o Corpo Governante é manter a Organização a funcionar e sem discípulos ela pára. 

Parágrafo 15 
...a adoração em familia servirá de protecção contra especulações e dúvidas. 
Comentário 
Ou seja, é preciso que a família sirva como complemento da Organização em manter todos igualmente cegos e surdos. Nada de questionar a sabedoria do Corpo Governante, que nestas coisas tem um canal directo com Deus. A qualidade do 'espírito santo' canalizada para estes deve ser de primeira, enquanto para os restantes é rasquido. Nem se apercebem como desenham um Deus execrável... 

Parágrafo 16 
Os ungidos têm a perspectiva de se unir com Cristo no céu. 

Comentário Aqui convém que se esclareça em que sentido! Estes “ungidos” não podem ser o “escravo fiel e discreto” agora de uso exclusivo pelo Corpo Governante. Afinal que sentido tem falar em “ungidos”?


Quando estudarem A Sentinela! nunca esqueçam que sempre têm de fazer um exercício de auto-referenciação. Ou seja, o que o Corpo Governante aplicar aos outros tem de em primeiro lugar aplicar a si mesmo. Vai ver que é um exercício interessante e esclarecedor.

[1] Veja o livro Proclamadores
[2] http://www.jwfacts.com/watchtower/politics.php#commercial

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

“Não vades além das coisas escritas”


A expressão acima é uma citação da Bíblia da primeira carta aos coríntios no capitulo quatro e o versículo seis. Estamos a citá-la porque queremos fazer mais um exercício de exegese, como vem sendo habitual aqui neste blog. Convém recordar que a exegese bíblica é um exercício de análise baseada apenas no texto bíblico. Fazemos isso porque a maioria das religiões a aceitam como autoridade, se bem que nem todas lhe atribuam a mesma importância. Movimentos fundamentalistas dão uma importância extrema ao texto bíblico e estabelecem sobre ele interpretações diversas. Como habitual nestas discussões estaremos no universo das Testemunhas de Jeová. Como já dissemos antes, não nos move nenhum intuito de perseguição ao movimento, mas apenas porque temos a oportunidade de o conhecer mais de perto e por outro lado a maioria das pessoas, não ter qualquer noção da teologia das Testemunhas de Jeová. Achamos que este esforço por trazer alguma discussão a uma teologia demasiado opaca só poderá considerar-se meritório quer por parte dos que se debruçam sobre estes assuntos, quer por parte do próprio movimento que no confronto das ideias se vê obrigado a repensar as bases da sua teologia. Infelizmente no seio do movimento a discussão teológica não é estimulada e nota-se ao analisar a sua literatura com atenção que há uma drenagem intelectual, com alguma pobreza argumentativa e um fixar-se apenas numa defesa extrema da autoridade dentro do movimento. O reforço de autoridade por parte do Corpo Governante, a cúpula do movimento responsável pelos éditos e estabelecimento das normas organizativas, tem sido o esforço principal nos últimos tempos. Ora este reforço de autoridade é feito por um argumentativo que se diz basear na exegese bíblica. [1] 

Curiosamente e voltando ao tema, as publicações do movimento quando citam 1 aos Coríntios 4:6 fazem uma curiosa extensão por associação. Para eles não ir além das coisas escritas, não quer dizer apenas ir além do que está escrito na Bíblia, mas também apegar-se ao que está escrito nas suas publicações e não ir além delas! Isto é deveras curioso, este alargamento de autoridade da Bíblia para a autoridade dos seus escritos. 
Defendem esta posição, com a necessidade de haver alguém que esclareça o sentido do texto bíblico, ou seja o texto carece sempre de uma interpretação, mesmo que argumentem que a sua é a mais correcta. Tenho a certeza que todos os movimentos defendem com unhas e dentes a mesma coisa.
Se alguém argumentar que é preciso que alguém nos explique o significado da Bíblia, há que perguntar se quem nos explica detém o verdadeiro significado. Quem nos garante que quem nos explica, pode interpretar melhor do que por exemplo nós pelo nosso próprio esforço? 
Quando alguém clama que tem uma relação de mais proximidade com a mente de Deus, é bom lembrar que isso é sempre uma auto-proclamação! O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová auto proclamou-se como o 'canal' pelo qual Deus revela a Sua vontade à humanidade. É de facto uma afirmação ousada, que merecerá, estou certo, post adequado. 

Mas esta auto-proclamação não deixa de ser preocupante. Se Moisés recebeu credenciais inequívocas de que vinha imbuído da autoridade divina pela capacidade de realizar actos milagrosos, como transformar um bastão em serpente, ou por colocar a mão na aba da sua veste a apresentar com lepra e depois pelo mesmo movimento curá-la novamente, parecem-me argumentos de peso que ninguém ousaria de ânimo leve por em causa a autoridade divina do portador. Se isto é assim com Moisés, com muitos outros e em especial nos tempos históricos mais próximos isso nunca se verifica, não havendo nem milagre nem vaticinio que permita alguma confiança na sua proclamação! Infelizmente a história tem mostrado que os que depositam confiança nestes auto-proclamados iluminados, acabam desapontados a mais longo prazo. O vigarista nunca diz que não é sério! Até é capaz de jurar pela saúde da mãe!


Voltemos à questão da exegese. Como é do conhecimento geral, as Testemunhas de Jeová têm uma curiosa posição em relação às transfusões de sangue, que rejeitam liminarmente, se bem que com algumas excepções curiosas. A razão da sua recusa radica na interpretação de textos bíblicos como por exemplo o de Gênesis 9:4 quando Deus ordenou a Noé e sua família acabados de sobreviver ao Dilúvio “Somente a carne com a sua alma — seu sangue – não deveis comer.” As Testemunhas de Jeová dizem que se tratou de um requisito universal porque toda a humanidade descende de Noé e sua família. Como se sabem os judeus têm requisitos sob a matança dos animais que consomem [2] que vem da Lei dada por Deus a eles. Lançando a ponte para o cristianismo agarram no texto de Atos 15:20, onde argumentam que a proibição do uso de sangue se manteve para os cristãos, porque lá diz que os conversos “...se abstenham de sangue...” Mesmo nos tempos medievais esta questão se manteve viva, com a proibição em certas regiões do consumo de morcela, por exemplo. De um ponto de vista exegético a posição quanto à proibição alimentar parece-me plenamente defensável. No caso das transfusões foram largamente além do que está escrito! Não cabia na cabeça de ninguém ao tempo em que essas palavras foram proferidas e assentadas por escrito para a posteridade pensar em transfusão de sangue! Portanto trata-se de um abuso sobre o texto. Ainda mais ao arbitrariamente definirem que fracções são ou não permitidas! Sim porque a cúpula de topo abriu a porta aos seus acólitos poderem aceitar fracções de sangue sem represálias. Esta ideia ainda devia estar mais afastada da mente dos autores bíblicos.

Que é preciso cautela na questão interpretativa é visto na passagem em que Jesus falou da necessidade de comer seu sangue e comer sua carne, na obtenção da salvação [3]. Obviamente Jesus não defendeu o canibalismo, embora ele estivesse ali mesmo que sob a forma de uma ilustração. A bênção do seu sacrifício, embora este fosse literal, com a morte do seu corpo e o derramar do seu sangue, o meio de receber a bênção não precisava de ser literal. Se assim fosse o seu corpo e o seu sangue seria insuficiente para salvar toda a humanidade.
Claramente os que tropeçaram tiveram problemas interpretativos se bem que partissem de axiomas verdadeiros, como aquele que dizia que o canibalismo era inaceitável. 
Curioso que os defensores de certa interpretação sempre acusam os de interpretação diferente de "falsos profetas" e de "falsos instrutores".

Exageros interpretativos como os que proíbem os festejo do aniversário, deviam levar à proibição se aplicados da mesma forma à proibição de se ter cão. Curiosamente a bíblia fala de pastores mas nunca associa a estes a utilização de cães. As Testemunhas de Jeová defendem que os únicos relatos na Bíblia de aniversários os colocam sob uma luz negativa e sempre celebrados por pagãos, e assim sendo interpretam que não os devem celebrar. Curiosamente a Bíblia, quando fala de cães é sobre uma luz igualmente negativa mas não aplicam o mesmo argumento e não objectam que os crentes tenham cães como animais de estimação. Faço notar que isto é uma desonestidade intelectual.
Os problemas interpretativos têm às vezes algumas curiosas reviravoltas. Os Testemunhas de Jeová sabem que a ciência rebate seguramente a ideia de um Universo feito em seis dias de 24 horas, ou até mesmo de uma Terra feita nesse curto período. Por isso, têm uma curiosa interpretação dos dias criativos em Génesis. Segundo eles, um dia para Jeová são mil anos [4], dá-lhes o balanço para interpretar os 'dias' de Génesis no intervalo que lhes é conveniente. Como Jeová depois de ter criado o mundo, passou a descansar no chamado 'sábado', e visto que Deus ainda está a descansar e segundo eles passaram seis mil anos e ainda faltarão os mil anos do reino milenar [5], então interpretam que cada dia criativo teria de ter durado 7 mil anos. Portanto os seis dias criativos serão no total 42 mil anos. Mesmo assim do ponto de vista cientifico, manifestamente insuficiente.
Do ponto de vista da exegese bíblica contudo, também não é honesto!
Afinal o texto de Génesis não dá azo ao alargamento temporal intencionado pelas Testemunhas de Jeová numa tentativa de conciliação com a ciência, ou querendo parecer menos fundamentalistas que a concorrência.
Se repararmos com atenção no texto de Génesis relativamente à criação, notamos com facilidade que cada dia criativo termina com a expressão "...e veio a ser manhã e noitinha do dia..." tal [6]. Portanto o único período de tempo com manhã e noitinha é um dia de 24 horas. A sermos exegeticamente honestos a explicação das Testemunhas de Jeová não é correcta.
Terão de arranjar outra interpretação.
Sugiro-lhes uma interpretação quântica em que Deus demora 24 horas a fazer o colapso das ondas de probabilidade que originaram o Universo. [7] É uma interpretação que pode conciliar a exegese e a ciência.

[1] Por favor podem ver as análises que já fizemos sobre esse tema como por exemplo o post anterior a este.
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Kosher
[3] O relato pode ser lido em no Evangelho de João 6:53-60, 66
[4] 2 Pedro 3:8
[5] Revelação 20:6
[6] Génesis 1:5, 8, 13, 19, 23, 31
[7] Aconselho o livro “Deus não morreu” de Amit Goswami da Planeta Editora (2009)

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Alimentando a muitos pelas mãos de poucos



Na edição de estudo de “A Sentinela” de Julho de 2013, as Testemunhas de Jeová fazem um exercício exegético curioso, em que tentam convencer os leitores de que o seu actual Corpo Governante (a liderança do movimento) é o mesmo que o “escravo fiel e discreto” que aparece numa das ilustrações de Jesus no evangelho de Mateus (Mateus 24:45). É importante para as Testemunhas de Jeová este assunto, porque a autoridade da liderança radica quase por inteiro neste entendimento muito particular sobre quem é o tal “escravo fiel e discreto”, embora se trate meramente de uma ilustração de Jesus, e não como entendem as Testemunhas de Jeová, a designação de alguma classe de discípulos. Aliás, a ser isso, cairia por terra uma afirmação das Testemunhas que diz que entre eles são todos iguais, sem nenhuma classe clerical. Ora objectivamente, o Corpo Governante que define a ortodoxia do movimento e o faz com uma disciplina férrea, é uma classe sobre todos os demais, que estabelece uma hierarquia funcional de cima para baixo, desde os Superintendentes de Filial, passando por superintendentes de distrito e de circuito até aos anciãos e servos ministeriais, estes últimos nas congregações locais. Aliás, a partir dos superintendentes de circuito para cima é a própria organização que lhes paga a subsistência, tornando-os autênticos funcionários teocráticos ao serviço permanente da organização.

Mas não é sobre esses aspectos hierárquicos e funcionais que queremos analisar. Queremos antes verificar se, de um ponto de vista meramente exegético, isto é, se raciocinando meramente à base da Bíblia, o exercício de reclamar que há um modelo apostólico que respalda que Jesus, o incontestado líder da congregação cristã, designou em termos de ensino um pequeno grupo, para por meio dele, alimentar espiritualmente os restantes, ou não.

 O primeiro golpe a este raciocínio, ainda antes de abordarmos o artigo de “A Sentinela”, é dado pela própria Bíblia. Peguem numa e observem os livros que dela constam no Novo Testamento, e notem como todos eles emanam de um autor identificado e não de nenhum corpo ou organismo existente no primeiro século. Isto é, os autores da Bíblia, se bem que inspirados por Deus, são indivíduos e não organizações. Só por si, isto seria suficiente para inviabilizar qualquer raciocínio que defendesse a existência hoje de uma organização usada por Jesus para alimentar espiritualmente a outros. Como Jesus fazia menção em Mateus 24:45, “o escravo fiel e discreto” seria todo aquele que alimentasse os seus irmãos. Ou seja, cada cristão, na medida do seu progresso espiritual, adquiriria a responsabilidade de se tornar instrutor de outros. É precisamente nesse sentido que Paulo vai apelar aos hebreus (Hebreus 5:12): “Pois, deveras, embora devêsseis ser instrutores, em vista do tempo, precisais novamente que alguém vos ensine desde o princípio as coisas elementares das proclamações sagradas de Deus e vos tornastes tais que precisais de leite, não de alimento sólido.” Reparem na dicotomia de se ser simultaneamente instrutor e instruído, numa relação não hierárquica, pois Paulo não está aqui a apontar para uma qualquer classe de instrutores, mas para uma relação igualitária entre irmãos. Aliás sabemos hoje que as comunidades paulinas (congregações por ele estabelecidas) eram comunidades de uma ampla participação entre os seus membros, onde inclusive se permitia a participação às mulheres!

Portanto, ao observar mais do alto a Bíblia e as comunidades existentes no cristianismo primitivo, nada aponta para a existência de uma classe do “escravo”, para algum Corpo Governante, ou qualquer outro corpo central e centralizador de autoridade. Reforço dessa ideia vem do livro de Revelação, em que Jesus não se dirige a um corpo central para transmitir a outros as suas orientações, mas manda recados a sete congregações. Mesmo o argumento de que ao apóstolo João fiel receptador da mensagem, cumpra o papel do Corpo Governante, tal cai por terra pois a mensagem foi entregue a um indivíduo, na tradição dos tempos passados. Cumpria sempre ao profeta ser o transmissor da mensagem, mesmo que ela se destinasse a vários destinatários. Deus sempre suscitou um indivíduo, não uma classe, para transmitir as suas mensagens. E mesmo a existência de uma classe sacerdotal em Israel, não tira força ao argumento, se se tiver cuidado na análise: a classe sacerdotal apenas existia pela necessidade da oferta de sacrifícios no tabernáculo e depois no templo.

Voltemos, então, agora, ao artigo em pauta. O artigo pega em dois episódios do ministério de Jesus, aqueles em que ele alimenta materialmente a multidão, os famosos milagres da multiplicação dos pães. Nas duas ocasiões depois de Jesus ter pregado às multidões, ele manda que os apóstolos providenciem algo para elas, e aproveita para então fazer o milagre da multiplicação. O artigo defende, então, a tese que isso mostra que esse seria para sempre o modelo, Jesus providenciaria e depois esse alimento seria distribuído pela mão de uns poucos. Seria nesta sequência que se iria inserir a classe do “escravo fiel e discreto” e este será o Corpo Governante.

Primeiro problema: nas duas ocasiões foi providenciado quer alimento espiritual, quer alimento material. Portanto, fazer a aplicação da distribuição de alimento material como paralelo ou modelo da distribuição de alimento espiritual, é para dizer o mínimo, abusivo! Se alguma ilação se pode tirar do episódio, seria até contrária à prática das Testemunhas de Jeová! No caso, Jesus seria o providenciador do alimento espiritual, distribuído por ele directamente e sem intermediários, beneficiando a todos, e caberia aos discípulos mais próximos a responsabilidade de providenciar o que era material! Não esqueçamos que Jesus interpela directamente os apóstolos nesta questão da providência material: "No entanto Jesus disse-lhes: “Não precisam ir embora; dai-lhes vós algo para comer”" (Mateus 14:16) Note-se que a interpelação é directa, Jesus acha que é a eles que cabe providenciar materialmente a multidão. Ora, as Testemunhas de Jeová consideram hoje que não é sua responsabilidade primária providenciar materialmente os necessitados, o que até contraria outras passagens das Escrituras. (Tiago 1:27)

Segundo problema: a distribuição, embora pela “mão de poucos”, no caso em apreço, pelas mãos dos discípulos, não indicia qualquer organização específica! Ou seja, naquela altura não havia nenhum corpo de discípulos específico, semelhante, por exemplo, ao Corpo Governante, como estando separado dos demais. Se há aqui algum paralelo a tirar para a modernidade, seria o de que todos os discípulos têm igual responsabilidade na distribuição de alimento. É importante frisar que o texto refere discípulos e não apóstolos. Também tentar argumentar que estes ‘discípulos’ eram os apóstolos, parece ter muito pouco cabimento, pois sabemos que, entre os discípulos que seguiam a Jesus, havia mulheres (Mateus 27:55) e em certa ocasião se refere que setenta haviam sido enviados em uma campanha de pregação (Lucas 10:10). Portanto, estes dois episódios não justificam a ideia de alimentar a muitos pela mão de poucos, porque neste caso os poucos seriam todos os discípulos presentes. Necessariamente teriam de ser substancialmente mais de 12 se haviam de alimentar a milhares num tempo razoável!

Terceiro problema: naquela ocasião, a multidão alimentada não se tornou automaticamente seguidora de Jesus! Se é verdade que mais tarde o quiseram fazer rei, isso se prendeu com o facto de buscarem a sua própria vantagem (João 6:15). Portanto, seria uma má ilustração de como alimentar espiritualmente alguém, pois este modelo geraria sentimentos egoístas, como se alguém que buscasse o Reino e a sua justiça, apenas estivesse animado na busca da sua própria vantagem. Ora, a lição de Jesus não é essa! A sua lição vai sempre no sentido e na prática do amor. O alimentar pessoas é, de facto, evidência disso, do cuidado e da preocupação com os outros. (Mateus 15:32)

Concluindo: não há nestas passagens, nenhuma base sólida para acreditar que Jesus estivesse pensando em estabelecer um modelo de distribuição de alimento espiritual para o futuro. A ideia de alimentar a muitos pela mão de poucos, acaba sendo uma construção frágil. Tanto mais frágil, se pensarmos que o verdadeiro providenciador é Jesus. Os discípulos apenas têm de dar “testemunho de Jesus” (Revelação 19:10). E, como diz Paulo, “não vades além das coisas que estão escritas” (1 Coríntios 4:6) ou ainda em outra ocasião quando diz que não se acredite em outras boas novas, nem mesmo que transmitidas por um anjo! (Gálatas 1:8) Tais afirmações reforçam a ideia de que tudo o que havia para revelar tinha sido revelado por Jesus e apenas haveria que seguir o seu pensamento.

Jesus é o líder activo da congregação cristã e não precisa delegar autoridade em ninguém como classe para dirigir a congregação. Isso seria, aliás, a negação do papel que lhe cabe. Como fez no passado, apenas precisa de assegurar que com a colaboração humana, o seu alimento esteja sempre disponível. Neste particular, quero mencionar que quando as Testemunhas de Jeová apareceram no cenário do mundo, já muitos antes delas haviam outros colaborado com Jesus nesse sentido. Muitos traduziram a Bíblia com risco da sua própria vida até, muitos tinham dado a sua interpretação do texto, ou elucidado certas passagens, todos esses, mesmo que em denominações diferentes e até com visões antagónicas, contribuíram para o dinamismo do Cristianismo e para que a sua chama e encanto se mantivesse acesa. Foi sempre a autoridade, a concentração de poder eclesiástico, que trouxe sobre ele, Cristianismo, as piores manchas, o seu lado mais sinistro, sombrio e negro. As organizações foram elas sempre a lançar blasfémia ao nome do Cristo, contribuindo mais para a sua desconsideração e descrença, do que a fé do crente individual, do discípulo que movido pelo seu exemplo e ensino se esforçou no caminho do amor.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012



O Martírio de Carl Olof Jonsson 

 Talvez pensemos que a destruição de pessoas por diferenças religiosas seja uma coisa do passado. Talvez queiramos que a inquisição seja apenas um lamentável acontecimento no passado histórico e nos queiramos tranquilizar, de que nos dias de hoje e em especial na nossa sociedade ocidental evoluída e esclarecida essas coisas já não existem. Pensar assim é errado. Em pleno século XX, nas nossas democracias da civilização moderna, ainda há “queimas” de hereges. Quero trazer-vos à atenção o martírio de Carl Olof Jonsson.

Quem foi Carl Olof Jonsson?

 Foi um pregador de tempo integral na Suécia, isto é alguém que devotou grande parte do seu tempo, batendo às portas dos seus vizinhos, para à base da Bíblia apresentar a ‘verdade’ segundo o credo das Testemunhas de Jeová. 

Ao pregar em 1968, numa dessas visitas de casa em casa, encontrou um senhor interessado que aceitou estudar mas que mais tarde o desafiou a provar que a data de 607 a.C. para a desolação de Jerusalém, data esta defendida pelas Testemunhas de Jeová, estava correcta, ao invés da amplamente aceite pelos historiadores como sendo 587 ou 586 a.C. 

Carl Olof Jonsson era não só zeloso e convicto, mas era também um homem honesto. Ele estava convencido que haveria ampla evidência em favor da data de 607 a.C e começou a aprofundar o assunto. Porque essa questão das datas é importante? Para a maioria das pessoas não é, e não terá grande importância Jerusalém ter sido destruída em 607 a.C. ou em 587 a.C. ou em 586 a.C. Mas para as Testemunhas de Jeová (daqui em diante passaremos a designar apenas como TJ por facilidade), é um ponto central sobre o qual assenta a sua teologia e onde a hierarquia vai buscar a sua autoridade. 

Tenham paciência e procurem, por favor, perceber o que está em jogo aqui e como isso é fundamental para a sua liderança. 

As TJ acreditam que Jesus começou a reinar nos céus no ano de 1914. Pensam que o tempo entre 1914 até ao fim do actual sistema de coisas, findará na grande guerra de Deus que se chama Armagedão, e que estamos vivendo ‘o tempo do fim’. Isso justifica a sua urgência em contactar o maior número de pessoas, para que se convertam ao seu movimento, se hão-de evitar perecer. 

Contudo, depois que Jesus começou a reinar em 1914, ele tomou um conjunto de acções que passou por uma limpeza espiritual em 1918, quando veio inspeccionar aqueles que se diziam cristãos e designou em 1919 um “escravo fiel e discreto”. Sem surpresas este “escravo fiel e discreto” é representado na Terra, pelo chamado Corpo Governante das TJ. Isto é, a sua autoridade é apresentada como derivando directamente do próprio Jesus, em função do argumento de que este começou a reinar em 1914! 

Porque o trabalho de Carl Olof Jonsson é uma ameaça para as TJ? 

Porque Carl Olof Jonsson no seu estudo profundo sobre a queda de Jerusalém e que passou anos, pelo menos até 1977 a compilar evidências, chegou à conclusão de que a data de 607 AC estava errada, como data da queda de Jerusalém. A data de 1914 é contada a partir desta última com base no texto de Lucas 21:24 em que Jesus afirma que as nações teriam de reinar até ao fim dos Tempos dos Gentios, isto é teria de passar um período de tempo até que ele começasse a reinar. Elas aceitam que estes Tempos dos Gentios têm a duração de 2520 anos, o que começando em 607 a.C., terminam em 1914 [1]. Se essa data inicial de que partem, está errada[2], então Jesus não começou a reinar em 1914, não veio ao templo fazer uma limpeza espiritual em 1918 e não veio designar o “escravo fiel e discreto” em 1919. A autoridade do Corpo Governante é então completamente posta em causa. Daí Carl Olof Jonsson e o seu estudo aprofundado da cronologia bíblica e histórica ser tão perigoso, ter consequências tão devastadoras. 

Como agiu Carl Olof Jonsson? 

Com profunda nobreza de carácter. Como a maioria das TJ, ele estava convencido que o Corpo Governante era honesto nas suas declarações de buscar a ‘verdade’ doesse a quem doesse! Ele pensava que ao contrário dos sacerdotes que condenaram Jesus e que estavam apenas com medo que este fosse uma ameaça ao seu domínio[3], estes fossem mais nobres, quais bereanos[4] e corrigissem uma deficiente posição, mostrando que acima de tudo estavam interessados na verdade. Pagou caro essa ingenuidade.
Em 1977 escreveu um extenso tratado sobre a questão e o enviou para a consideração do Corpo Governante. Na troca de correspondência que se seguiu, ficou claro que eram incapazes de refutar as evidências que Jonsson apresentava e determinados a manter o seu sistema doutrinal intacto. A liderança das TJ intimou-o a manter-se calado em relação ao assunto. Jonsson acatou, “esperando em Jeová” que finalmente o Corpo Governante tomasse uma posição em respeito pela ‘verdade’, mas o que sucedeu foi um ataque pessoal a Jonsson. 
Nos meses seguintes através dos seus púlpitos foi dito que quem questionasse a cronologia da organização não passava de um orgulhoso e presunçoso que achava saber mais do que aqueles a quem Jesus designara. Os representantes viajantes, que vão visitando regularmente as congregações, chegaram a passar a ideia que os questionadores da cronologia, não passavam de possessos pelo demónio. Assim se assassinam personalidades e se difamam carácteres! 
Finalmente em 1982, mais de 25 anos passados, uma comissão judicativa é formada[5] para ‘tratar’ de Jonsson. Ele recebeu a pena máxima que é a excomunhão do movimento, com a consequência de nenhuma TJ poder falar com ele, com o risco de também ela ser excomungada! O caricato é que os três membros que o expulsaram não leram sequer o seu tratado, que fora redigido em inglês, língua que não dominavam! Só depois deste tratamento indigno é que finalmente Carl Olof Jonsson publicou o livro contendo os resultados da sua pesquisa e as conclusões a que chegou baseado nela[6]. Nesse livro apresenta sete linhas de evidência em favor da queda de Jerusalém por Nabucodonosor em 587 a.C. 
As mesmas sete linhas de evidência que destroem a autoridade do Corpo Governante das TJ, e mostram que afinal a sua liderança não tem qualquer respeito pela ‘verdade’ e cujo carácter aproxima-se mais dos sacerdotes no Sinédrio do que de Jesus. 

[1] Podem ver este artigo no site oficial das TJ: aqui. Para os leitores curiosos podem achar online um livro descontinuado das TJ com o mesmo raciocínio com o título “Certificai-vos de todas as coisas…” aqui. 

 [2] A revista “JWRecovery”, Fall 2009 no artigo “Did Jerusalém Fall in 607?” pág. 22 e que pode ser descarregado aqui.

[3] João 11:48 

[4] Atos 17:10, 11 

[5] Uma espécie de Tribunal dos TJ, para julgar violações dos seus membros. Sim, uma espécie de Santo Ofício. 

[6] “The Gentile Times Reconsidered”, publicado por Commentary Press. (Podem comprar na Amazon.com) Os apenas curiosos talvez queiram ir por aqui.