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terça-feira, 29 de abril de 2014

Renunciar à injustiça




Em "A Sentinela" de 15 de Julho de 2014, na página 12 e no parágrafo 2 está escrito:


Analisemos isso num exercício de auto-referenciação: 
- É ou não injustiça, desassociar pessoas por terem aceite prestar Serviço Cívico ao invés de Serviço Militar antes de o Corpo Governante dizer que isso é permitido?

- É ou não injustiça, no passado alguém ter sido desassociado por ter aceite tratamento à base de sangue e agora esse tratamento ser permitido porque o Corpo Governante autorizou?

- É ou não injustiça, dizer mal da ONU e depois o Corpo Governante autorizar a inscrição nela como Organização Não Governamental usufruindo dos direitos que esta concede às organizações que credita como tais?

- É ou não injustiça, declarar-se a favor da neutralidade e depois o Corpo Governante autorizar o investir em armamento?

- É ou não uma injustiça, desassociar pessoas pelo uso do tabaco e depois o Corpo Governante autorizar investir na indústria tabaqueira?

- É ou não uma injustiça, permitir que pedófilos continuem a sua predação sem serem entregues à justiça, só porque o Corpo Governante acha que deve manter uma política que se revela desastrosa para o bem-estar das crianças no seu seio e um paraíso para pedófilos?

- É ou não uma injustiça, que face a uma enorme crise, o Corpo Governante imponha às congregações uma espécie de dízimo, obrigando estas a envio regular de uma contribuição? 

- É ou não uma injustiça, que achando o fim tão próximo, continue empenhada em projectos de construção megalómanos? 

- É ou não uma injustiça, que se altere a teologia só para reforçar a autoridade do Corpo Governante, que é agora considerado como sendo “o escravo fiel e discreto”? 

- É ou não uma injustiça, que o Corpo Governante condene a “educação superior”, quando beneficia da mesma, quer pela tecnologia que usa, quer pelo progresso médico? 

- É ou não uma injustiça, o título de “Corpo Governante”, quando o próprio Jesus o condenou? Veja Mateus 20:25, 26 

Se existe hoje quem se possa colocar no papel de Corá, Datã e Abirão, terá de ser o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, que vai muito mais longe do que estes foram e se quer colocar no lugar do próprio Cristo, subtraindo a este a liderança da Congregação! Afinal as Testemunhas de Jeová sinceras, estão a seguir a Deus ou a homens? Jesus bem disse: “É em vão que persistem em adorar-me, porque ensinam por doutrinas os mandados de homens.” (Mateus 15:9)

sábado, 1 de março de 2014

Você Fará Sacrifícios Pelo Reino?



Estes exercícios de auto-referenciação viciaram-me. Cá vai portanto, os comentários para o artigo com o tema em epígrafe, em A Sentinela! de 15 de dezembro. Não se esqueçam que podem procurá-la aqui http://www.jw.org

Têm de me desculpar, comentar um pouco menos, mas os artigos são de uma pobreza intelectual e exegética que até dá dó. Nota-se nestes últimos artigos, o medo que ataca o Corpo Governante, a cúpula do movimento das Testemunhas de Jeová, e que estabelece a teologia e as regras que os seguidores devem aceitar. Apesar de parecer, pela leitura das publicações, que tudo se trata de voluntarismo por parte dos súbditos, isso é bastante ilusório, pois existe uma vigilância apertada nas congregações que denunciam todo o comportamento desviante. Os membros podem mesmo vir a ser expulsos por falhas na aceitação da teologia e/ou regras. Este é um assunto sério entre eles, porque os membros não podem ter qualquer contacto com aqueles que são expulsos. Recentemente um rapaz, pai de filhos, foi expulso e acabou por se suicidar. Certamente o facto de não poder contactar com os membros da sua família, deve ter contribuído para este acto desesperado [1]. Mas não será por isso que o Corpo Governante alterará as suas regras humanas, ensinando mandados de homens como se de Deus se tratassem [2].

Passemos então aos comentários aos diversos parágrafos do artigo de estudo. Não comentaremos todos os parágrafos como já dissemos.

Parágrafo 1
O Reino era a coisa mais importante na sua vida.
Comentário
Confunde-se sempre o Reino com a Organização. É uma confusão propositada e alimentada, isso é notório em todo o artigo.

Parágrafo 2
...a obra de pregação está avançando...
Comentário
Por acaso esta afirmação não é verdadeira. A fazer fé nos números a obra está a estagnar. E nem é de agora. Para mais pormenores sigam a ligação: http://www.jwfacts.com/watchtower/statistics.php

Parágrafo 2
...ele é vital para os interesses do Reino.
Comentário segundo
A questão devia ser um pouco mais esta: Se acabar a Organização, acaba o Reino? Parece-me que não, se é que alguma lição se pode tirar da destruição do Templo em Jerusalém em 70 EC.

Parágrafo 3
Todos nós, porém, devemos fazer uma auto-análise.
Comentário
Quem devia fazer uma auto-análise era o Corpo Governante. Este apenas quer assegurar que continuará a ter sentido a sua existência, mesmo que a sua teologia tenha de sofrer uma esforçada torção. Muitas delas dão mesmo uma volta de 180º.

Parágrafo 3
Será que podemos fazer mais sacrifícios pelo Reino? Como estamos usando nosso tempo, dinheiro, energia e habilidades? Que cuidado devemos ter?
Comentário segundo
Estão a ver como a confusão entre Reino e Organização é forçada? Mas as perguntas que o Corpo Governante devia fazer era: Porque estão os publicadores a desanimar? Porque cada vez o movimento atrai menos pessoas? Será que isso se dá porque as tretas são demasiado evidentes?
Não despercebam que a Organização está a demandar tudo dos seus súbditos: tempo, dinheiro, energia e habilidades! Se censuram a IURD por esmifrar os seus devotos, deviam olhar-se ao espelho e ver que não esmifram menos.

Parágrafo 3
...sacrifícios voluntários, o que aumentará nossa alegria.
Comentário terceiro
Aqui vem-me à lembrança um livro [3] em que o autor diz que em dadas circunstâncias, em especial quando não há alternativas, nós humanos fazemos a síntese da felicidade. Ou seja, uma situação que não é nada feliz, é interpretada e sentida como produtora de felicidade. Um pouco como uma pessoa com uma unha encravada e na impossibilidade de resolver o problema diga: “A principio custava-me, mas agora entendo que esse é o modo que a natureza escolheu, portanto sinto-me feliz por estar a experimentar em primeira mão, um fenómeno natural.” A dor está lá, mas a leitura que se faz dela é outra. As Testemunhas de Jeová quando contam as suas “experiências” fazem isto muitas vezes.

Parágrafo 4
Os sacrifícios eram necessários para que o povo tivesse o favor de Jeová.
Comentário
Consegue apanhar o paralelo que é possível fazer com as idas a pé a Fátima?
No fundo trata-se do velho negócio religioso de barganhar com Deus: Se eu te fizer isto, tu dás-me aquilo.
Um bocado infantil, não acham? Não consigo imaginar Deus a negociar assim... Mas ao que parece o Corpo Governante acha perfeitamente plausível.

Parágrafo 5
...até mesmo os pobres podem fazer sacrifícios...
Comentário
Infelizmente os pobres são sempre sacrificados. Para além de explorados e daí serem pobres, são também enganados por espertalhões interessados em tirar-lhes o pouco que ainda têm.

Parágrafo 6
...animal...um sacrifício...
Comentário
É preciso ainda encarar o facto de que sacrifícios animais, são um barbarismo, mesmo que isso seja uma ordem de Deus. Eu acho que é um aproveitamento de uma velha tradição, por parte de Deus e não propriamente uma invenção ou ordem Deste. Mas admito que isto é uma interpretação não exegética.

Parágrafo 6
Jeová especificou que, se alguém numa condição impura oferecesse um sacrifício de participação em comum, o que incluía ofertas voluntárias, ele seria decepado do povo de Deus.
Comentário segundo
Devemos perguntar o que pensará Jeová de uma Organização que abriga pedófilos no seu seio?

 Parágrafo 7
...construção de Salões do Reino...
Comentário
Estas construções apenas aumentam o património imobiliário da Organização! Os Salões embora mantidos localmente, não são propriedade da congregação ou congregações locais. Aliás, a Organização vê com algumas reticências qualquer Salão que não seja ou não possa tornar-se propriedade sua. Para quem acha que o fim está próximo, a sua ânsia de se tornar proprietária é deveras curiosa.
Aliás é interessante considerar quantas sinagogas construiu Jesus, ou quantos edifícios de reunião construíram os primeiros cristãos. Ao que parece, e contrário à Organização, os cristãos reuniam-se em casas particulares. Só depois na apostasia é que começaram a construir igrejas. Querem ver que o Corpo Governante também está contaminado com apostasia?!

Parágrafo 9
...não tinham muito tempo e deviam aproveitá-lo ao máximo para cuidar das coisas importantes.
Comentário
Aqui nota-se que o mais importante para o Corpo Governante é manter a máquina a rolar! A mensagem é: não percam tempo com o que vos faz felizes, que a vossa felicidade é sacrificarem-se pela Organização!

Parágrafo 10
...dezenas de milhões de dólares são usados par cuidar dos gastos com superintendentes viajantes, pioneiros especiais e missionários.
Comentário
Os aqui mencionados são os funcionários teocráticos que a Organização inventou para manter a máquina em movimento, numa cadeia hierárquica bem definida, e que claramente contraria a ideia de uma organização sem classes, como costumam dizer sem clérigos nem leigos. O que é certo é que têm estes “profissionais”.
E se gastam dinheiro com eles, acho bem estranho como isso tem base bíblica, pois pelo que sei Paulo como missionário não consta que recebesse, nem qualquer outro!

Parágrafo 11
Jeová se agrada muito dessa disposição.
Comentário
O contexto mostra que os membros deviam juntar dinheiro para entregar depois na congregação. E concluem com essa frase. Mas o que me intriga, porque há-de Jeová agradar-se com essa disposição? Acaso recebe por transferência bancária?

Parágrafo 12
Ele promete nos ajudar quando nos sentimos cansados.
Comentário
O que se quer dizer é que ninguém tem desculpa e nem pensem dizer que estão cansados! Isso é apenas uma fraca desculpa para não dar, para se recusar ao sacrifício.
E tem mais, reparem bem na subtileza, se ficarem encrencados não venham à Organização pedir ajuda, aí quem dá é Jeová! Mas o dinheiro foi para quem mesmo? Não são mesmo muito diferentes dos católicos ou da IURD, pois não?

Parágrafo 15
...por isso trabalhavam na construção durante o dia e, à noite, iam para os campos plantar. Um excelente exemplo de sacrifícios a favor do Reino! Isso nos faz lembrar os irmãos da Macedónia, no primeiro século. Eles viviam em extrema “pobreza”, mas ainda assim rogavam pelo privilégio de participar...
Comentário
A comparação é perversa: num caso o único beneficiado materialmente é a Organização, no primeiro século tratava-se de ajudar materialmente pessoas carentes, não qualquer organização teocrática existente.
Os aspectos de ajuda humanitária são um aspecto sempre secundário para a Organização!

Parágrafo 15
Que cada um de nós também 'dê de modo proporcional à bênção que Jeová nos tem dado'.
Comentário
Parecemos a IURD!

Parágrafo 16
Precisamos manter o equilíbrio ao cuidarmos das nossas principais responsabilidades, ou seja, as familiares e as espirituais.
Comentário
Depois de citarem o exemplo de cristãos que de dia trabalharam na construção de um Salão e de noite iam cuidar dos seus campos, como podem vir com esta hipocrisia de “manter o equilíbrio”? Que equilíbrio há em trabalhar noite e dia?

Parágrafo 18
...participar o máximo possível...
Comentário
No parágrafo 16 falavam de equilíbrio, ainda se lembram?


Talvez pense que caricaturo em demasia, nos comentários que faço. Admito que possam ter alguma razão. Mas esta caricatura é necessária para trazer à evidência o que precisa ser evidenciado. Presumo que para as Testemunhas de Jeová sinceras poderá parecer chocante, mas isso é apenas porque tal como Paulo depois da cegueira do deslumbramento as escamas têm de cair dos olhos, aqui claramente olhos de entendimento. O exercício pode ser doloroso, mas como se diz: A verdade dói!




[2] Marcos 7:7 “É em vão que persistem em adorar-me, porque ensinam por doutrinas os mandados de homens.”

[3] “Stumbling on Hapiness” de Daniel Gilbert

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Evite ser 'demovido depressa de sua razão'



Já o fizemos anteriormente e voltamos de novo à carga, fazendo uma análise do conteúdo de A Sentinela de estudo de 15 de Dezembro, disponibilizada gratuitamente no site www.jw.org. Tratam-se de considerações breves do primeiro artigo de estudo com o tema acima mencionado. O formato da nossa abordagem será o mesmo, citamos o parágrafo na parte que nos interessa destacar e de seguida o nosso comentário.


Parágrafo 1, 2 ...
sob influência do Diabo recorrem cada vez mais ao engano,
Comentário Este medo é um bocado descabido para quem afirma ter tanta fé em Deus e em vista do que diz em 2 Coríntios 13:8: “Pois, não podemos fazer nada contra a verdade, mas somente a favor da verdade.” Se assim é, não percebo tanto medo, tanta cautela e tanto aviso. Quem pode ter razões para temer é que recorre ao engano. Será que... 

Parágrafo 4 .
..aguardamos a destruição de Babilônia, a Grande, o império mundial da religião falsa.
Comentário Passam este ano 100 anos desde a pretensa entronização do Cristo nos céus em 1914. Todas as explicações para a duração da geração que tinha presenciado o acontecimento com os olhos do entendimento se esgotaram. A última invenção é que a “geração” se refere aos ungidos e ainda há-de haver “ungidos” quando o fim vier. O que acredito, até porque tem vindo a aparecer cada vez mais “ungidos”! Se este conceito num ponto tão fundamental quanto o entendimento do que é esta “geração”, varia tanto, que confiança podemos ter em qualquer outra interpretação provinda da Organização? Aliás 1914 já foi interpretado por esta como o tempo do fim e não como o início do fim. [1] Os malabarismos teológicos da Organização são sempre surpreendentes. 

Parágrafo 4
...por meio da congregação...
Comentário segundo
Visto que é nestas que as pessoas são endoutrinadas nos conceitos da Organização.

Parágrafo 4
Dar atenção a esses alertas frequentes pode fortalecer nossa determinação de prestar a Deus 'um serviço sagrado com nossa faculdade de raciocínio.' - Rom. 12:1
Comentário terceiro
Será servir a Deus ou à Organização? E reparem que o texto menciona 'faculdade de raciocínio'. Que raciocínio haverá ao aceitar sem questionar tudo o que a Organização debita? Ora como vimos no primeiro comentário eles não são de confiança, tendo vindo com o tempo a alterar o que antes defendiam com convicção. Já Jesus dizia que se um cego guiar outro cego, ambos cairiam numa cova. Com isso Jesus quis dizer que nunca devemos entrar em “seguidimos” cegos. 

Parágrafo 5
...alguns na congregação haviam ficado “provocados”, ou perturbados, achando que o dia de Jeová estava prestes a chegar. (Leia 2 Tessalonicenses 2:1, 2)
Comentário
Mas não é precisamente isto que faz a Organização? Não estão sempre a provocar as congregações “achando que o dia de Jeová” está prestes a chegar? Ou estão agora a começar uma retirada estratégica, para nos dizer que não devemos especular, como se toda esta ansiedade pela chegada do dia tivesse sido cultivada de moto próprio pelos publicadores! Quando é que finalmente os iluminados do Corpo Governante assumem que não sabem interpretar adequadamente a Bíblia, pelo menos de modo a que possam impor a sua visão a quem quer que seja? 

Parágrafo 6 
Até que ponto eu amo a verdade? Estou em dia com o entendimento actual fornecido por esta revista e outras publicações baseadas na Bíblia, que são preparadas para a congregação mundial do povo de Deus.
Comentário 
Isto é uma afirmação perversa! Parte da assumpção não provada de que sempre nos dizem a verdade, equiparando o que escrevem à autoridade da Bíblia! Na nota do parágrafo fala que no decorrer da história a apostasia produziu classes, clérigos e leigos. Bom, a Organização e o seu Corpo Governante, produziu governantes e governados. 

Parágrafo 7 
“o amor ao dinheiro é raiz de toda sorte de coisas prejudiciais.” 
Comentário 
Pois, mas e então os investimentos que o Corpo Governante faz, inserem-se em que contexto? Não será neste? Afinal faz sentido uma organização que condena o uso do tabaco e não toma partido nas guerras investir nessas áreas? [2] 

Parágrafo 8 
...havia homens que falavam “coisas deturpadas, para atrair a si os discípulos.”(2 Cor. 11:4, 13; Atos 20:30)
Comentário 
Mas afinal quem é que fala de coisas que nem sequer estão na Bíblia como se estivessem e são por isso mesmo “desordeiros”? Sim a Bíblia não fala sobre vacinas, sobre o ano de 1914, ou sobre a existência de um Corpo Governante, ou fala? E contrário ao que às vezes se faz parecer querer, os que denunciam as falhas teológicas da Organização, não estão na sua larga maioria buscando fazer “discípulos”! Quem os quer fazer a toda a força é mesmo a Organização e para isso tanto insiste na necessidade de uma pregação feita com carácter de urgência, como se o mundo fosse acabar amanhã. Portanto se a alguém se há-de aplicar a Escritura sobre “coisas deturpadas para atrair discípulos” ela parece aplicar-se com perfeição à Organização. 

Parágrafo 8 
Aqueles efésios 'puseram à prova' pessoas que na realidade eram falso apóstolos, homens mentirosos. (Rev. 2:2) 
Comentário 
Então porque não se poderá por à prova o Corpo Governante? O que tem para temer? ~

Parágrafo 9 
...devemos ficar alertas caso alguém que assiste às nossas reuniões na congregação tente nos envolver em conversas que giram em torno de críticas ou de especulações pessoais.
- 2 Tes. 3:13-15 
Comentário 
Espero que tenham a noção de que isso envolve o que vem em A Sentinela! Ou os únicos autorizados a fazerem críticas e terem especulações pessoais são os velhos de Brooklyn sentados como Corpo Governante? 

Parágrafo 10 
...tradições 
Comentário 
Esta defesa das “tradições” é nova e leva a Organização para fora do conceito de sola scriptura, tão querido desde Lutero à interpretação protestante. Será que o Corpo Governante está a fazer uma inflexão ao catolicismo? 

Parágrafo 10 
...promovidas como se tivessem o mesmo valor dos ensinamentos das Escrituras. 
Comentário 
Mas será que o Corpo Governante não se enxerga, não tem um espelho diante de si, quando escreve estas coisas? De facto o Corpo Governante puxou para si a competência de emanar ensinamentos com o mesmo valor dos que estão nas Escrituras! Pois, como pode desassociar alguém por apostasia, se não é assim? 

Parágrafo 13 
A predita apostasia se revelou muito tempo atrás e continua até hoje. 
Comentário 
E então porque a Torre, a Organização, o Corpo Governante não podem ser um reflexo dessa apostasia? Só porque juram que não? Lembram-se, que os efésios puseram à prova? Devemos fazer o mesmo ao que nos quer ensinar o Corpo Governante. No mínimo é da mais elementar justiça. 

Parágrafo 14 
Para cumprirmos essa comissão, precisamos ser zelosos no ministério. 
Comentário 
A única coisa que parece realmente importante para o Corpo Governante é manter a Organização a funcionar e sem discípulos ela pára. 

Parágrafo 15 
...a adoração em familia servirá de protecção contra especulações e dúvidas. 
Comentário 
Ou seja, é preciso que a família sirva como complemento da Organização em manter todos igualmente cegos e surdos. Nada de questionar a sabedoria do Corpo Governante, que nestas coisas tem um canal directo com Deus. A qualidade do 'espírito santo' canalizada para estes deve ser de primeira, enquanto para os restantes é rasquido. Nem se apercebem como desenham um Deus execrável... 

Parágrafo 16 
Os ungidos têm a perspectiva de se unir com Cristo no céu. 

Comentário Aqui convém que se esclareça em que sentido! Estes “ungidos” não podem ser o “escravo fiel e discreto” agora de uso exclusivo pelo Corpo Governante. Afinal que sentido tem falar em “ungidos”?


Quando estudarem A Sentinela! nunca esqueçam que sempre têm de fazer um exercício de auto-referenciação. Ou seja, o que o Corpo Governante aplicar aos outros tem de em primeiro lugar aplicar a si mesmo. Vai ver que é um exercício interessante e esclarecedor.

[1] Veja o livro Proclamadores
[2] http://www.jwfacts.com/watchtower/politics.php#commercial

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Auto-referenciação



Para haver noção de quão alienada pode estar uma organização, que se vê a si mesma como especial e que tenta passar uma ideia de modéstia e descrição, basta proceder a um exercício de auto-referenciação. 
O que entendemos por auto-referenciação? É o exercício de aplicar a sua visão dos outros, ou o que exige dos outros a si mesma, seja à organização no seu todo ou a parte dela. 
É um exercício de honestidade intelectual. 

Vamos fazer esse exercício com base numa publicação das Testemunhas de Jeová, em “A Sentinela” de 15 de Novembro do ano transacto com o artigo “Pastores, imitem os dois maiores pastores”. O artigo visa instruir os anciãos de modo a exercerem pastoreio aos restantes membros da congregação. Temos de lembrar-nos que a função primária destes passa por manter o rebanho contente na actividade de pregação. Sem esta actividade, o movimento depressa entraria em colapso. Recentes desenvolvimentos baseados na sua escatologia[1] colocam em perigo a visão da urgência da actividade, vendo os responsáveis máximos um perigo que precisa ser colmatado. Um dos caminhos para manter o rebanho é dar-lhe afago emocional. Num mundo confuso e em crise, a precisar de abraços a receita pode revelar-se bem sucedida em manter os que estão e converter outros. Esta discussão é além do mais necessária, porque o movimento diz-se sem classes, se assim é o que se aplica aos anciãos há-de então aplicar-se com mais acutilância aos responsáveis pela liderança, que se intitulam a si próprios de “Corpo Governante”. 

O que segue são excertos da publicação supra-citada e que pode ser consultada no site da organização [2]. Apenas referenciamos o parágrafo e citamos a parte que nos importa para a discussão.


Parágrafo 1
“o homem simplesmente leva o rebanho para um pasto e o deixa sem nenhum cuidado, é bem provável que em poucos anos ele tenha muitas ovelhas doentes que não lhe darão nenhum lucro”. Mas, quando as ovelhas recebem cuidados adequados, o rebanho vai bem.
Comentário:
Aqui fazem uma citação e referem que as ovelhas é para dar lucro. Muito honesto!

Parágrafo 2
Porque os que tinham a responsabilidade de ensinar a Lei de Deus ao povo eram duros, exigentes e hipócritas. Em vez de cuidar das ovelhas de seu rebanho com amor, os líderes religiosos de Israel colocavam “cargas pesadas” nos ombros delas. 
Comentário: 
Então mas não é o que o Corpo Governante faz? Não são “duros, exigentes e hipócritas.”? Vejamos se não são “duros” no sentido de que se alguém não aceita as suas regras ou visão teológica pode ser desassociado? E tem acontecido inúmeros vezes que hoje pode ser desassociado e amanhã pelo mesmo acto já não! Não são “duros” quando proíbem pais de terem contacto com filhos desassociados ou vice-versa? Não são exigentes, sempre estimulando que a pessoa dê tudo em favor do movimento? Que não frequente ensino superior, mas ao invés siga o caminho do proselitismo como profissão? Não procuram que todos os anos, os seus membros pelo menos um mês ou mais sirvam mais tempo na actividade de pregação, servindo como pioneiros? Não têm os anciãos de pregar e cuidar de inúmeras responsabilidades congregacionais sem qualquer remuneração, ou ainda pior com pouco ou nenhum reconhecimento? Finalmente são hipócritas porque apesar de serem duros e exigentes, se apresentam como preocupados e amorosos. Além de que nunca ninguém os viu a pregar tanto como o que demandam dos outros.


Parágrafo 3
Os anciãos nunca devem esquecer que eles são subpastores, sujeitos à supervisão do amoroso Filho de Deus, Jesus Cristo, “o grande pastor das ovelhas”. 
Comentário: 
Os anciãos se calhar estão bem lembrados disso, mas o Corpo Governante não está! Eles substituem-se a Cristo, ao afirmarem ser o único canal entre Deus e os homens, quando este papel é só de Jesus que afirmou claramente “Ninguém vem ao Pai, senão por mim.” 

Parágrafo 4 
Por outro lado, os anciãos cristãos são exortados a não 'dominar' os que são a herança de Deus’. Comentário: 
Como é que este exercício de domínio está ausente da expressão “Corpo Governante”? Então se governam, alguém há-de ser governado, e há sem espaço para tergiversões um domínio sobre alguém!

Parágrafo 5
Esse quadro mental passa a ideia de que Jeová cuida das necessidades dos membros da congregação que estão fracos e vulneráveis.
Comentário:
A princípio pode parecer até que tal frase denota uma preocupação amorosa com alguém numa condição menos favorável. Mas é preciso entender aqui a semântica particular do movimento perante a palavra ‘fraco’ e ‘vulnerável’. Para eles, e claro está para o Corpo Governante, ‘fraco’ é o que prega pouco! E ‘vulnerável’ é aquele que nutre dúvidas em relação à doutrina oficial e corre portanto o risco de tropeçar e até tornar-se herege ou mesmo apóstata. Sendo que fraco e vulnerável é também aquele que não assiste a todos os ofícios religiosos do movimento.

Parágrafo 6
Sem invadir a privacidade deles, o ancião fica atento ao que vê e ouve na congregação, e amorosamente se coloca à disposição para “auxiliar os que são fracos”.
Comentário:
Embora seja muito correcto o “sem invadir a privacidade deles”, a frase é falsa! Haja o rumor de por exemplo um dos seus membros estar envolvido em fornicação e vão ver para onde vai parar a dita privacidade!

Parágrafo 7
Em vez de alimentar as ovelhas, aqueles pastores as exploravam e ‘apascentavam a si mesmos’. (Eze. 34:7-10; Jer. 23:1) A condenação que Deus expressou contra aqueles pastores pode muito bem ser aplicada aos líderes da cristandade.
Comentário:
Estas frases são claramente hipócritas! Então o Corpo Governante reduz as reuniões em contradição com Hebreus 10:24, 25 [3] que tanto gostava de citar para levar os fracos a assistir às suas reuniões; e vai daí e elimina uma das reuniões semanais! Portanto distribui menos alimento espiritual! E que dizer do encolher das revistas no número de páginas? Há então menos alimento distribuído! Portanto o ‘Corpo Governante’ enquanto pastor é igualzinho à cristandade! Mas continua a pedir o mesmo esforço aos seus seguidores, quer no tempo quer nos recursos canalizados para si. Ou seja estão apascentando a si mesmos.

Parágrafo 8
Por lavar os pés deles, Jesus ensinou uma lição prática sobre humildade, qualidade que os superintendentes cristãos precisam mostrar.
Comentário:
Quando os membros do ‘Corpo Governante’ lavaram os pés de alguém? Ou seja quando mostraram humildade? Será que humildemente mudaram a sua política face aos pedófilos? Será que pediram desculpas a todos aqueles que deixaram ir para a prisão por recusarem “serviço cívico” ao invés de serviço militar e até os desassociaram e mais tarde mudaram de opinião e já permitem aos seus jovens a prestação de “serviço cívico”? Afinal não é isto uma enormíssima hipocrisia? E quando mudam de conceitos teológicos na afirmação de que são “novas luzes” ou “novo entendimento”, alguma vez afirmaram que antes estavam errados? Não me lembro de ter lido isso uma única vez.

Parágrafo 9
Jesus corrigiu essa atitude, dizendo: “Vocês sabem que os governantes de outras nações gostam de mandar no povo. E seus grandes líderes têm poder absoluto sobre todos os que eles governam. Mas não façam assim. Se querem ser grandes, vocês devem ser servos de todos os outros.” (Mateus 20:25, 26, Contemporary English Version)
Comentário:
Será que os membros do ‘Corpo Governante’ entendem esta frase de Jesus? Não podem entender de certeza! Então eles chamam a si mesmos de ‘governantes’ coisa que Jesus condenou aos seus seguidores! E se são incapazes de perceber frase mais clara, como podem confiar que eles entendam bem qualquer outra?

Parágrafo 10
Paulo disse aos coríntios que ele não era amo da fé daqueles cristãos.
Comentário:
Sim, Paulo talvez não tenha sido, mas em contra partida o ‘Corpo Governante’ tem sido. A prova é o facto de que naquilo que não está claramente expresso na Bíblia, eles irem “além das coisas escritas” e porem-se a inventar! Tem sido assim com o caso das vacinas, dos transplantes e das transfusões de sangue! Houve tempos em que proibiram aos seus membros taxativamente essas coisas, nunca deixando à consciência do crente. E se não são amos da fé, então o que são as regras de vestuário, de comprimento do cabelo, de música aceitável, etc, etc.?

Parágrafo 11
Ele pode destacar princípios bíblicos que um irmão deve considerar ao tomar uma decisão importante e analisar com ele matérias que já foram publicadas sobre o assunto.
Comentário:
Repare-se como subtilmente se coloca a Bíblia a par com o que a organização pública! Pegando no parágrafo anterior se não são amos da fé, bem que o querem ser.

Parágrafo 12
Agir assim ajuda os anciãos a evitar qualquer abuso de poder.
Comentário:
Em termos de abuso de poder, a organização tem muito por onde corrigir. Desde guerrilhas políticas entre anciãos pelo controlo das congregações, até comissões judicativas com decisões muito díspares, ou seja arbitrárias, consoante o membro e o estatuto deste, que esteja em causa. A imparcialidade e o objectivo de servir a justiça, mesmo que pelo seu particular entendimento da Bíblia, deixa muito a desejar! O caso mais público de que assim é os casos de pedofilia. Nalguns casos o prevaricador continuou às vezes até mesmo, servindo em cargos de responsabilidade.

Parágrafo 13
Como um ancião pode ser exemplo para o rebanho?
Comentário:
Basicamente por pregar muito e ainda assim cumprir com todas as exigências adicionais, ou seja assistir e preparar reuniões e fazer pastoreio. Também que ‘convença’ a família a fazer o mesmo, ou seja que pregue muito, assista às reuniões, as prepare e participe nelas. Isso é o que querem dizer quando escrevem “deve ser ajuizado no sentido de entender claramente princípios divinos e saber como aplicá-los em sua própria vida.” Não admira que estes homens, pelo menos os convictos e sinceros, se esgotem e sofram de níveis assustadores de stress. Claro está que também não o podem manifestar abertamente, pois serão tidos como ‘fracos’, devendo em alternativa sempre mostrar-se alegres pois “Jeová é um deus feliz”. E que os que têm fé, nunca se esgotam pois confiam que Jeová lhes dá poder!

Parágrafo 14
A determinação dos superintendentes em dedicar seu tempo e energia à pregação das boas novas, apesar de sua agenda cheia, incentiva a congregação inteira a imitar seu zelo.
Comentário:
Ora cá está a confirmação do que já afirmamos. Basicamente a mensagem para os anciãos é: Matem-se a trabalhar para a organização a ver se os restantes também o fazem! Claro que não “duros” nem “exigentes”, são apenas “hipócritas”, pois tudo isso é para manter a sua organização a andar. O bem-estar das ovelhas é realmente subserviente dos seus interesses.

Parágrafo 15
Assim, pastorear envolve visitar com regularidade os membros da congregação para tentar entender as dificuldades de cada um deles e encorajá-los com conselhos bíblicos apropriados. 
Comentário:
Apenas realça o que já dissemos. Em suma, os anciãos não têm desculpa, têm de fazer TUDO o que lhes é pedido sem descanso: Pregar muito, preparar e dirigir as reuniões, cuidar da família e ainda fazer pastoreio. E se houver problemas, a culpa é deles que não cuidaram do rebanho. Conheço alguns destes homens de bom coração, que procuram cumprir com todas estas demandas organizacionais. Nem sempre são bem sucedidos, mas faz parte, assim tem sempre ‘culpa’ em algum aspecto. Esta ‘culpa’ é depois usado para os ‘manter na linha’. A hipocrisia e perversidade do “Corpo Governante” é deveras refinada.

Parágrafo 16
Mesmo que a pessoa espiritualmente doente não ‘chame os anciãos’, eles devem agir para ajudá-la assim que souberem de sua situação.
Comentário:
Lembram-se ainda da treta da ‘privacidade’ quase no início do artigo? Então vejam lá se não há aqui uma contradição. E como se vê as actividades destes pobres homens, ainda inclui servirem em comissões judicativas, porque é a isso que o parágrafo se está a referir. Devo lembrar que a maioria destes anciãos se bem que às vezes bem intencionados, são na maioria pessoas simples, sem qualquer formação jurídica para entender conceitos básicos como a diferença entre um facto e uma interpretação. Muitas vezes a sua impreparação e auto convencimento de que estão habilitados torna as situações piores. Mas isso acaba sendo o reflexo da sua própria liderança que opina sobre assuntos, para as quais, apesar das aparências, não está nitidamente qualificada.

Parágrafo 17
O rebanho é muito beneficiado e continua progredindo.
Comentário:
O importante é que continue progredindo, de preferência aumentando em número, pois não esqueçam é para dar “lucro” como indicava o primeiro parágrafo. Aliás esta organização deve ser vista como uma empresa que vende artigo e este calha de ser ‘religião’. É ilusório pensar que fornecem a ‘verdade’ sobre a Bíblia ou uma esperança mais fundamentada do que as outras.


Nota final:
Muitos talvez estranhem que sempre mencione as Testemunhas de Jeová nos meus artigos e que não sou meigo com elas. Que talvez haja alguma relação de inimizade que me motive. Nada podia estar mais longe da verdade e convém esclarecer que como estudioso destas matérias, um dia me deixei envolver por um dos seus pregadores e aproveitei para fazer um estudo mais profundo do movimento. No princípio sentia o calor de uma fraternidade, fui aceito e bem acolhido como ‘estudante da bíblia’. As coisas começaram a ficar menos entusiasmantes e calorosas quando comecei a fazer perguntas baseadas na minha própria investigação. As dificuldades do meu ‘instrutor’ em me responder e às vezes respondendo com afirmações pouco honestas, levaram a pouco e pouco a acharem-me companhia pouco recomendável, um perigo para as ovelhas. Como não me podem impedir de assistir às suas reuniões públicas, a que assisto com regularidade, têm-me debaixo de olho, em especial os anciãos, seguindo as instruções da organização por meio dos seus superintendentes viajantes, como são designados os representantes da Associação aqui em Portugal.

Nos últimos anos, já desistiram de conversar comigo, porque acham as minhas perguntas impertinentes. No fundo, dizem-me que ando a ler nos sites apóstatas e que não devia fazer isso, pois são apenas mentiras e calúnias. Mesmo quando são citações das suas próprias publicações! É curioso como quando nos aproximamos deles, colocando em questão as crenças anteriores somos elogiados, mas quando questionamos com profundidade as deles, somos…insensatos, que se deixam enganar.

Portanto se é um ‘estudante da bíblia’ apenas lhe posso dizer que seja cauteloso e examine bem onde se está a meter, pois como diz o ditado “Nem tudo o que luz é oiro!”
Apenas quero ajudar as pessoas a reflectirem e a ver aquilo que numa primeira abordagem do movimento, não é óbvio.
Espero que esta breve nota, lance luz sobre o que me motiva.


[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Escatologia
[2] http://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/w20131115/pastores-imitem-os-maiores-pastores/
[3] Diz o texto: “E consideremo-nos uns aos outros para nos estimularmos ao amor e a obras excelentes, não deixando de nos ajuntar, como é costume de alguns, mas encorajando-nos uns aos outros, e tanto mais quanto vedes chegar o dia.” (ênfase acrescentado).

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Alimentando a muitos pelas mãos de poucos



Na edição de estudo de “A Sentinela” de Julho de 2013, as Testemunhas de Jeová fazem um exercício exegético curioso, em que tentam convencer os leitores de que o seu actual Corpo Governante (a liderança do movimento) é o mesmo que o “escravo fiel e discreto” que aparece numa das ilustrações de Jesus no evangelho de Mateus (Mateus 24:45). É importante para as Testemunhas de Jeová este assunto, porque a autoridade da liderança radica quase por inteiro neste entendimento muito particular sobre quem é o tal “escravo fiel e discreto”, embora se trate meramente de uma ilustração de Jesus, e não como entendem as Testemunhas de Jeová, a designação de alguma classe de discípulos. Aliás, a ser isso, cairia por terra uma afirmação das Testemunhas que diz que entre eles são todos iguais, sem nenhuma classe clerical. Ora objectivamente, o Corpo Governante que define a ortodoxia do movimento e o faz com uma disciplina férrea, é uma classe sobre todos os demais, que estabelece uma hierarquia funcional de cima para baixo, desde os Superintendentes de Filial, passando por superintendentes de distrito e de circuito até aos anciãos e servos ministeriais, estes últimos nas congregações locais. Aliás, a partir dos superintendentes de circuito para cima é a própria organização que lhes paga a subsistência, tornando-os autênticos funcionários teocráticos ao serviço permanente da organização.

Mas não é sobre esses aspectos hierárquicos e funcionais que queremos analisar. Queremos antes verificar se, de um ponto de vista meramente exegético, isto é, se raciocinando meramente à base da Bíblia, o exercício de reclamar que há um modelo apostólico que respalda que Jesus, o incontestado líder da congregação cristã, designou em termos de ensino um pequeno grupo, para por meio dele, alimentar espiritualmente os restantes, ou não.

 O primeiro golpe a este raciocínio, ainda antes de abordarmos o artigo de “A Sentinela”, é dado pela própria Bíblia. Peguem numa e observem os livros que dela constam no Novo Testamento, e notem como todos eles emanam de um autor identificado e não de nenhum corpo ou organismo existente no primeiro século. Isto é, os autores da Bíblia, se bem que inspirados por Deus, são indivíduos e não organizações. Só por si, isto seria suficiente para inviabilizar qualquer raciocínio que defendesse a existência hoje de uma organização usada por Jesus para alimentar espiritualmente a outros. Como Jesus fazia menção em Mateus 24:45, “o escravo fiel e discreto” seria todo aquele que alimentasse os seus irmãos. Ou seja, cada cristão, na medida do seu progresso espiritual, adquiriria a responsabilidade de se tornar instrutor de outros. É precisamente nesse sentido que Paulo vai apelar aos hebreus (Hebreus 5:12): “Pois, deveras, embora devêsseis ser instrutores, em vista do tempo, precisais novamente que alguém vos ensine desde o princípio as coisas elementares das proclamações sagradas de Deus e vos tornastes tais que precisais de leite, não de alimento sólido.” Reparem na dicotomia de se ser simultaneamente instrutor e instruído, numa relação não hierárquica, pois Paulo não está aqui a apontar para uma qualquer classe de instrutores, mas para uma relação igualitária entre irmãos. Aliás sabemos hoje que as comunidades paulinas (congregações por ele estabelecidas) eram comunidades de uma ampla participação entre os seus membros, onde inclusive se permitia a participação às mulheres!

Portanto, ao observar mais do alto a Bíblia e as comunidades existentes no cristianismo primitivo, nada aponta para a existência de uma classe do “escravo”, para algum Corpo Governante, ou qualquer outro corpo central e centralizador de autoridade. Reforço dessa ideia vem do livro de Revelação, em que Jesus não se dirige a um corpo central para transmitir a outros as suas orientações, mas manda recados a sete congregações. Mesmo o argumento de que ao apóstolo João fiel receptador da mensagem, cumpra o papel do Corpo Governante, tal cai por terra pois a mensagem foi entregue a um indivíduo, na tradição dos tempos passados. Cumpria sempre ao profeta ser o transmissor da mensagem, mesmo que ela se destinasse a vários destinatários. Deus sempre suscitou um indivíduo, não uma classe, para transmitir as suas mensagens. E mesmo a existência de uma classe sacerdotal em Israel, não tira força ao argumento, se se tiver cuidado na análise: a classe sacerdotal apenas existia pela necessidade da oferta de sacrifícios no tabernáculo e depois no templo.

Voltemos, então, agora, ao artigo em pauta. O artigo pega em dois episódios do ministério de Jesus, aqueles em que ele alimenta materialmente a multidão, os famosos milagres da multiplicação dos pães. Nas duas ocasiões depois de Jesus ter pregado às multidões, ele manda que os apóstolos providenciem algo para elas, e aproveita para então fazer o milagre da multiplicação. O artigo defende, então, a tese que isso mostra que esse seria para sempre o modelo, Jesus providenciaria e depois esse alimento seria distribuído pela mão de uns poucos. Seria nesta sequência que se iria inserir a classe do “escravo fiel e discreto” e este será o Corpo Governante.

Primeiro problema: nas duas ocasiões foi providenciado quer alimento espiritual, quer alimento material. Portanto, fazer a aplicação da distribuição de alimento material como paralelo ou modelo da distribuição de alimento espiritual, é para dizer o mínimo, abusivo! Se alguma ilação se pode tirar do episódio, seria até contrária à prática das Testemunhas de Jeová! No caso, Jesus seria o providenciador do alimento espiritual, distribuído por ele directamente e sem intermediários, beneficiando a todos, e caberia aos discípulos mais próximos a responsabilidade de providenciar o que era material! Não esqueçamos que Jesus interpela directamente os apóstolos nesta questão da providência material: "No entanto Jesus disse-lhes: “Não precisam ir embora; dai-lhes vós algo para comer”" (Mateus 14:16) Note-se que a interpelação é directa, Jesus acha que é a eles que cabe providenciar materialmente a multidão. Ora, as Testemunhas de Jeová consideram hoje que não é sua responsabilidade primária providenciar materialmente os necessitados, o que até contraria outras passagens das Escrituras. (Tiago 1:27)

Segundo problema: a distribuição, embora pela “mão de poucos”, no caso em apreço, pelas mãos dos discípulos, não indicia qualquer organização específica! Ou seja, naquela altura não havia nenhum corpo de discípulos específico, semelhante, por exemplo, ao Corpo Governante, como estando separado dos demais. Se há aqui algum paralelo a tirar para a modernidade, seria o de que todos os discípulos têm igual responsabilidade na distribuição de alimento. É importante frisar que o texto refere discípulos e não apóstolos. Também tentar argumentar que estes ‘discípulos’ eram os apóstolos, parece ter muito pouco cabimento, pois sabemos que, entre os discípulos que seguiam a Jesus, havia mulheres (Mateus 27:55) e em certa ocasião se refere que setenta haviam sido enviados em uma campanha de pregação (Lucas 10:10). Portanto, estes dois episódios não justificam a ideia de alimentar a muitos pela mão de poucos, porque neste caso os poucos seriam todos os discípulos presentes. Necessariamente teriam de ser substancialmente mais de 12 se haviam de alimentar a milhares num tempo razoável!

Terceiro problema: naquela ocasião, a multidão alimentada não se tornou automaticamente seguidora de Jesus! Se é verdade que mais tarde o quiseram fazer rei, isso se prendeu com o facto de buscarem a sua própria vantagem (João 6:15). Portanto, seria uma má ilustração de como alimentar espiritualmente alguém, pois este modelo geraria sentimentos egoístas, como se alguém que buscasse o Reino e a sua justiça, apenas estivesse animado na busca da sua própria vantagem. Ora, a lição de Jesus não é essa! A sua lição vai sempre no sentido e na prática do amor. O alimentar pessoas é, de facto, evidência disso, do cuidado e da preocupação com os outros. (Mateus 15:32)

Concluindo: não há nestas passagens, nenhuma base sólida para acreditar que Jesus estivesse pensando em estabelecer um modelo de distribuição de alimento espiritual para o futuro. A ideia de alimentar a muitos pela mão de poucos, acaba sendo uma construção frágil. Tanto mais frágil, se pensarmos que o verdadeiro providenciador é Jesus. Os discípulos apenas têm de dar “testemunho de Jesus” (Revelação 19:10). E, como diz Paulo, “não vades além das coisas que estão escritas” (1 Coríntios 4:6) ou ainda em outra ocasião quando diz que não se acredite em outras boas novas, nem mesmo que transmitidas por um anjo! (Gálatas 1:8) Tais afirmações reforçam a ideia de que tudo o que havia para revelar tinha sido revelado por Jesus e apenas haveria que seguir o seu pensamento.

Jesus é o líder activo da congregação cristã e não precisa delegar autoridade em ninguém como classe para dirigir a congregação. Isso seria, aliás, a negação do papel que lhe cabe. Como fez no passado, apenas precisa de assegurar que com a colaboração humana, o seu alimento esteja sempre disponível. Neste particular, quero mencionar que quando as Testemunhas de Jeová apareceram no cenário do mundo, já muitos antes delas haviam outros colaborado com Jesus nesse sentido. Muitos traduziram a Bíblia com risco da sua própria vida até, muitos tinham dado a sua interpretação do texto, ou elucidado certas passagens, todos esses, mesmo que em denominações diferentes e até com visões antagónicas, contribuíram para o dinamismo do Cristianismo e para que a sua chama e encanto se mantivesse acesa. Foi sempre a autoridade, a concentração de poder eclesiástico, que trouxe sobre ele, Cristianismo, as piores manchas, o seu lado mais sinistro, sombrio e negro. As organizações foram elas sempre a lançar blasfémia ao nome do Cristo, contribuindo mais para a sua desconsideração e descrença, do que a fé do crente individual, do discípulo que movido pelo seu exemplo e ensino se esforçou no caminho do amor.